19 Sep 2021  |   05:29am IST

Fragmentos da história de Goa que não aprendemos

Fragmentos da história de Goa que não aprendemos

Cristo Prazeres da Costa

Na minha juventude escolar, em Pangim, nos anos 50, tanto na escola secundária, em língua inglesa (SSCE), como nos liceus, quase nada era leccionado sobre a história de Goa. Portanto, muitos acontecimentos importantes, que deveriam ser relatados pelos pais aos filhos e netos, e comemorados nos cantos folclóricos, ficaram praticamente congelados e reduzidos a uma simples frase: “a tomada de Goa por Afonso de Albuquerque foi no dia 25 Novembro de 1510”.

Somente no outono da minha vida comecei a descobrir alguns factos importantes da nossa história, que vou sintetizar apenas com três exemplos.

Os “mártires de Cuncolim” e o massacre dos seus caudilhos no forte de Assolná em 1583

Entre 1510 e a chegada dos jesuítas a Goa, os portugueses toleravam a religião e os costumes hindús, mas a partir de 1540, que coincide com a sua chegada e exclusividade na missionação de Salcete, houve uma viragem no comportamento das autoridades civis e eclesiásticas em relação às populações goesas. 

Foi a partir de então que se iniciou a destruição sistemática, de mais de 200 templos hindús (pagodes), em Salcete, sob o comando de Diogo Rodrigues, capitão do forte de Rachol, provocando o êxodo de muitas famílias, que levaram consigo estátuas das suas divindades para a outra banda do Rio Zuari - (poltollê vetã?). Esta destruição e perseguição durou até aos fins do século XVI. 

A 15 de Julho de 1583, 5 padres jesuítas (4 italianos e 1 português), mais 1 leigo português e 14 goeses nativos marcharam da igreja de Orlim até Cuncolim, para dar inicio à conversão dos hindús desta rica e industriosa aldeia. Chegados ao destino, foram todos massacrados pela maioria dos 12 vangodds (clãs) de gaunkares de Cuncolim. O vice-rei D. Francisco Mascarenhas mandou convocar os 15 caudilhos de Cuncolim para o forte de Assolná a fim de chegar a um acordo amigável com eles. Contudo, dentro do forte, 14 deles foram executados, apenas conseguiu  fugir 1 a nadou pelo rio Sal. Em seguida, o governador mandou apropriar os bens económicos da aldeia de Cuncolim.[1],[2]

Conjuração de 1773

O primeiro ministro de Portugal, Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal e colónias a 3 de Setembro de 1759 e por alvará de 2 de Abril de 1761, deu ordens expressas e detalhadas ao governador de Goa, D. José Pedro de Câmara, para tratar de forma igual e sem diferenças os goeses civis, militares e eclesiásticos aos portugueses metropolitanos, o que sucedeu lentamente.

Por carta de 10 de Fevereiro de 1774, sabe-se que apesar de terem falecido muitos cónegos, meio-cónegos e quaternários, o Arcebispo Primaz, Frei Francisco da Assunção e Brito, não tinha “nomeado um único goês para aqueles cargos, havendo nas ilhas de Goa, e províncias de Salsete e Bardez, mais de dez mil eclesiásticos, sendo muitos deles opositores, letrados, pregadores e teólogos consumados com distinto procedimento”.[2]

Após a morte do rei D. José I e o afastamento do Marquês em 1777, as descriminações na carreira militar e eclesiástica entre goeses, reinóis e mestiços não cessaram. Muitos intelectuais goeses partiram para Portugal e ali abraçaram as teorias iluministas das grandes capitais europeias. Entre eles encontravam-se o Pe. José António Gonçalves de Divar, Caetano Vitorino de Faria (pai de Abade Faria) e José António Pinto, que conceberam um plano secreto, para organizar uma revolta político-militar, com o fim de formar uma república independente com parlamento em Goa. Regressados a Goa, juntaram-se ao Pe. Gonçalves, o Pe. Caetano Francisco Couto de Pangim e outros padres. Nos encontros secretos, realizados em várias aldeias, aliaram-se-lhes outros padres e alguns militares goeses dos regimentos de Colvale e Pondá. 

Esta conspiração foi descoberta por ser denunciada por um dos conjurados! Não foram processados devido a intervenção da rainha D. Maria I. O Pe. Gonçalves escapou para Índia e o Pe. Couto, com mais 13 padres e alguns réus, foram desterrados para a prisão da Fortaleza de S. Julião de Barra, perto de Lisboa. Quinze militares goeses foram enforcados e esquartejados, em Pangim, e cinco foram flagelados publicamente. É de notar que entre os militares e leigos não se encontrava nenhum hindú [3][4].

Isso aconteceu apenas 14 anos depois do afamado Boston Tea Party, 2 anos antes do começo da revolução francesa e da revolta em Minas Gerais no Brasil!

O massacre de Margão a 21 de Setembro de 1890

No dia 21 de Setembro, comemora-se o 131.º aniversário de um acontecimento trágico ocorrido durante as eleições municipais em Margão, onde estavam presentes dois partidos goeses rivais: o partido Ultramarino, fundado por Bernardo Francisco da Costa, em 1859 e o Partido Indiano, fundado em 1865 por Dr. José Inácio de Loyola e oito salcetanos. 

Esta tragédia originou-se devido às manipulações do governador Vasco Guedes nas eleições de 1889, mais tarde por ele anuladas, para favorecer o candidato “oficial”, o metropolitano João da Costa Brandão de Albuquerque, natural de Sabugal/Portugal. O Partido Indiano insistiu em nomear o goês Cristóvão Pinto como seu candidato, depois de várias negociações com Vasco Guedes. 

Todavia, tendo havido uma pequena mudança na situação política na metrópole, esta veio a  influenciar a evolução política em Goa:

Os dois partidos goeses, associaram-se às duas correntes de pensamento então vigentes, rotativamente, no palco político em Portugal a partir da revolução de 1820: o partido de direita liberal monárquica - o Regenerador (de Fontes Pereira de Melo) - e opartido de esquerda liberal monárquica - o Histórico/Reformista/Progressista (de Anselmo Braamcamp e outros). Entre 1834 e 1842, três constituições diferentes entraram em vigor, sucessivamente: a Carta de 1826, a Constituição de 1822, a nova Constituição de 1838 e outra vez a Carta de 1826. Esta instabilidade foi ao mesmo tempo, causa e consequência da anarquia existente em Portugal e colónias. 

Em Goa, os governadores, reinóis e descendentes luso-indianos eram tradicionalmente monárquicos absolutistas. Menos prezavam as directivas do ministério das colónias, que iam mudando com os partidos no poder em Lisboa.

No dia das eleições municipais de 21 de Setembro de 1890, a maioria dos 6000 eleitores de Margão e das 6 aldeias vizinhas começaram a reunir-se em Margão às 7 horas de manhã, para votar num espaço da câmara municipal, onde mal cabiam 500 pessoas! Como medida de precaução e também intimidação, Vasco Guedes enviou uma companhia de soldados africanos a Margão.

O enviado especial do governador como administrador do concelho de Salcete, tenente-coronel Luís Bernardo Carneiro de Sousa Ferrão acompanhado do presidente da câmara, administrador das comunidades e de um polícia, entraram na câmara trazendo consigo alguns adeptos do partido ultramarino e barraram o acesso aos adeptos do partido indiano. Este incidente enfureceu os últimos, que começaram a deitar pedras e outros objectos para forçar a entrada na área de votação.

Após este tumulto clamoroso, a multidão, instigada pelos jovens caudilhos do partido indiano, espalhou-se no adro da igreja atrás da câmara. Segundo relatos de alguns jornais de Goa e Bombaim, o administrador do concelho, com a pistola na mão, vendo um fotógrafo a tirar fotografias, ordenou aos soldados africanos para abrir fogo sobre a multidão. Em 20 minutos 17 pessoas acabaram por morrer dentro da igreja e no adro, esse número,eventualmente, aumentou para 23.[5 ][6 ] [7 ]

Para encobrir o facto, Vasco Guedes tentou em vão, subornar o chefe inglês dos correios telegráficos para Reuters não espalhar a notícia. Os goeses de Bombaim e de outras partes da Índia, informados pelo semanário Anglo Lusitano (o jornal bilíngue dos goeses em Bombaim) e pelo diário Times of India, organizaram vários comícios e protestos. 

No dia seguinte, foram enviadas tropas a Orlim para capturar Loyola e outros, mas os sinos da igreja alertaram os caudilhos, que escaparam para Bombaim, via Betul e Karvar. Ao pedido do governo português, os ingleses começaram um processo judicial de “homicídio e sedição” contra os caudilhos e apenas a 18 de Setembro de 1891 Bombay High Court encerrou o processo devido à “falta de provas, estando até longe de uma sombra de crime”. Seis meses depois, Vasco Guedes foi removido do seu cargo. 

Por razões de saúde, Loyola regressou a Goa, a 23 de Setembro de 1891. Dias depois os outros caudilhos foram recebidos com júbilo popular na estação ferroviária de Margão e acompanhados em cortejo popular até à câmara municipal. Seguiu-se um ano de acalmia política. O Supremo Tribunal em Lisboa bem como o tribunal da Relação de Nova Goaa 18 de Agosto de 1892, absolveu os caudilhos de quaisquer crimes. 

Com exceção de 1890, o partido indiano ganhou todas as eleições bienais em Salcete até o ano 1902.

Bibliografia

[1] CÉLIA CRISTINA DA SILVA TAVARES A Cristandade insular: jesuítas e inquisidores em Goa (1540-1682). Tese ao curso de Pós Graduação em História da Universidade Flumiense Niteroi 2002

[2] VALENTINO VIEGASRaízes da minha terra, 2019 páginas 343 a 360

[3] HELIODORO DE CUNHA RIVARA A conjuração de 1787 em Goa, e várias cousas desse tempo. Memória Histórica. Nova Goa: Imprensa Nacional, 1875.

[4] CELSA PINTOA Revolt of the Natives of Goa, 1787 The Forgotten Martyrs January 2014

[5] SHARMILA PAIS History and politics of elections in Goa (1821-1963): a doctoral thesis University of Goa in 2017

 [6] Dr SHARON DA CRUZ and Dr. MAX LOYOLA FURTADOThe Partido Indiano and the September Revolt of 1890 in Goa in Economic and Political Weekly Vol.46, Issue No.3 from August 13, 2011

[7] VALMIKI FALEIRO Soaring spirit: 450 years of Margão´s Espirito Santo Church (1565-2015) 2015 páginas 209-226.

IDhar UDHAR

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