28 Mar 2021  |   05:25am IST

O MUSEU DE ALFÂNDEGA EM PANGIM SUI GENERIS NA ÍNDIA

O MUSEU DE ALFÂNDEGA EM PANGIM SUI GENERIS NA ÍNDIA

Celina Almeida

Pangim, a capital de Goa, orgulha-se de possuir o único museu na Índia, o Museu de Alfândega e de Impostos. O edifício, uma herança patrimonial de arquitetura Portuguesa, está situado na Avenida Dom João de Castro. Este museu é uma verdadeira escola de aprendizagem sobre a contribuição da alfândega e de impostos para o país. Antes de entrarmos no Museu, gostava de vos levar para um passado longíquo para a aprendizagem ser mais interessante. Os muçulmanos, sob o domínio de Adil Shah de Bijapur, dominavam todo o comércio marítimo do Mar Arábico e a Casa de Alfândega na Velha Cidade situada na margem do Rio Mandovi era chamada mandvi pelos muçulmanos. O vocábulo mandvi, derivado do sânscrito mandapa, além de significar um salão rodeado de pilares usado para vários fins pode também ser sinónimo de um estaleiro naval. Antes de 1510, toda a mercadoria da Velha Cidade até ao Mar Arábico era transportada pelo Rio Mandovi e presume-se que o nome do rio provenha do vocábulo mandvi.

A Alfândega da Velha Cidade estava localizada nas proximidades do Arco dos Vice-Reis, por detrás do Convento de São Caetano onde presentemente se pode ver o Instituto do Pio X. Pyrard, um francês culto, quando da sua visita à Velha Cidade no século XVII comparou a imponência da Casa de Alfândega de Goa ao Palácio Real de Paris. Goa era um importante empório de comércio, para onde mercadores dos países situados na orla do Oceano Indico, na Baía de Bengala, de Meca, de Aden, de Ormuz na Ásia Ocidental viajavam em galés com as suas mercadorias: cavalos, especiarias, tabaco, pimenta, tapetes, seda, oiro, escravos e muitas outras. 

Mas o Porto da Velha Cidade era também o ponto de encontro de caravanas do interior da Índia e essas traziam uma abundante mercadoria terrestre, antes de 1510. Albuquerque, depois da Conquista de Goa, permitiu os muçulmanos a continuar com o comércio marítimo de cavalos porque a cavalaria era fundamental para o seu poderio neste Estado. Goa transformou-se num centro de riqueza mais famoso do Mundo com os impostos que os mercadores pagavam à Alfândega de Goa até o século XVII. 

Infelizmente, é só lendo as narrativas de Pyrard, de Tomé Pires e de outros é que podemos saber do resplendor da Velha Cidade pois já não existem nenhuns vestígios desse resplendor. 

A Velha Cidade, em 1759, foi infestada pela peste, o que obrigou o Governo a transferir todas as repartições oficiais para Pangim. No início do século XIX, barracões de madeira cobertos com chapas de zinco serviam de alfândega e estavam situados na margem do Mandovi, mesmo do lado oposto onde se encontra o presente Museu. Em 1834, quando o Vice Rei Dom Manuel de Portugal e Castro- considerado como o verdadeiro fundador da cidade de Pangim- governava Goa, foi erigido um edifício com o rés-do-chão e o primeiro andar para servir como alfândega. Anos mais tarde, o edifício foi ampliado porque o negócio portuário continuava a expandir. O rés-do-chão tinha nove arcos largos que permitiam a passagem de carroças para descarregar as mercadorias.

Goa, preparava-se para celebrar o quarto centenário da morte de São Francisco Xavier em 1952. A capital de Goa foi transformada numa cidade atraente e grandiosa, graças ao plano de modernização do Vice Rei. Construíu-se uma estrada em frente ao Palácio de Adil Shah ligando-a à antiga Avenida do Brasil, ao presente a Avenida D. Bandorkar. 

Como A Bela Adormecida, o Museu de Alfândega também adormeceu por 150 anos.

Em 1997, o Governo Central encarregou o Departamento das Obras Públicas de Nova Delhi para restaurar o edifício pelo seu valor  intrínseco. Contudo, a renovação da fachada foi feita pela Delegação da Fundação Oriente na Índia. O Museu foi todo pintado em azul escuro, ou tinta indigo que era antigamente obtida de uma planta do Vale do Indus, um produto de intensa exportação naquela época. A inauguração, em 2009, deu livre acesso ao público para este Museu. 

Entra-se no edifício por uma larga porta em arco, virada para o Rio Mandovi. À direita, encontra–se uma capelinha antiga dedicada ao Santo António. As grandes salas, as amplas paredes dos corredores, a larga escadaria de madeira, cria no visitante o sentir da cultura portuguesa. O Museu tem quatro secções no rés-do-chão e ele conta-nos em cada secção, através de uma coleção de itens, a evolução deste tema desde a Civilização do Vale do Indus até ao presente. 

A Secção de Apresentação onde o visitante pode apreciar fotografias, mapas, gráficos, recortes dos jornais e das revistas que elucidam os empreendimentos e as proezas das alfândegas da Índia. 

A Secção do Património exibe uma exposição de sinetes, instrumentos de medida, entre outros. O visitante pode enriquecer o seu conhecimento sobre o sistema indiano de impostos ao longo dos séculos. Um item de grande valor histórico é o manuscrito do sistema de Impostos no reinado do Imperador Akbar. Uma exibição muito interessante nesta sala é a do diorama do estaleiro de Lothal, uma cidade portuária da civilização do Harrapa (2450-1900 AC). 

A Sala onde se expõem objectos utilizados para camuflar produtos a introduzir ilícitamente em Goa e que ilustram a perícia e a genialidade de alguns contrabandistas tais como pneus de bicicletas, o contrabando de relógios dentro dos carros, de sabonetes, de sandálias de borracha, de oiro e de diamantes dentro de bengalas e uma coleção de itens dos contrabandistas engenhosos pode satisfazer a curiosidade do visitante. 

A Secção onde ao presente estão exibidos artigos confiscados pelas autoridades aduaneiras: imagens de pedra, de bronze de grande valor artístico, histórico e sentimental como a de deus Nataraja confiscada em 1976 no aeroporto em Kolkata, a imagem doirada de Jambhala, o deus de riqueza, levada do Nepal para Índia, os pilares de Amin que foram devolvidos pelo Reino Unido podem ser apreciados no Museu Nacional em Nova Delhi e no Museu em Kolkata. O que se vê em Pangim são réplicas dessas imagens. 

O Governo tenciona estabelecer um auditório e um balcão de compras de artigos relacionados com as alfândegas e uma secção interativa dos artigos com o visitante.

Ao subirmos a larga escada de madeira que nos leva ao primeiro andar, pode-se ver nas paredes painéis com pinturas de várias casas de alfândegas ao longo da costa da Índia. No futuro, este espaço terá um Museu de Impostos, um laboratório, uma cafetaria e uma sala de desportos. 

Esperemos pela realização desses planos.

IDhar UDHAR

IDHAR UDHAR