Quo vadis, Goa?

Alvito Peres da Costa

stamos nas vésperas do 54o aniversário do “Opinion Poll”, o escrutínio de opinião mediante o qual, em Janeiro de 1967, o povo goês acabára com a ameaça existencial que a sua terra encarava perante a possibilidade de sua integração no Estado de Maharashtra. Tendo participado activamente no movimento em que fomos vitoriosos, percebo agora quão ingênuo terá sido o meu senso de complacência no rescaldo dessa vitória, no sentido de que eu andava convencido de que a ameaça existencial à Goa teria sumido para sempre. Ai como eu estava errado!

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A nosssa “terrinha” encontra-se num tumulto sem precedente frente a actual trilogia de planos de grandes projectos de infra-estrutura a serem executados no seu solo: a conversão da auto-estrada NH4A em quatro faixas; instalação de via dupla ferroviária; e a da linha de transmissão de 400kV. Todas elas ameaçam as florestas no Santuário “Bhagwan Mahaveer” de Vida Selvagem, e no Parque Nacional de Molém. A expansão da ferrovia tem em vista a rota de Vasco da Gama a Torangallu no Estado vizinho de Carnátaca.

O ogro primário em todo esse cenário é, como sabemos, a hulha. E, como deverá ser do conhecimento geral, todos esses projectos visam tornar a nossa pequena Goa num centro hulhífero. Encarada como uma abominação, a realização desses projectos significaria o fim de Goa como um destino turístico, pois toda ela irá tornar-se num centro industrial. A ameaça à saúde (em vista das doenças crónicas dos pulmões causadas por material particulado) do seu povo e ao seu património cultural, o espectro de outras consequências funestas, derivadas desses projectos, ao ambiente pristino e à rica biodiversidade de Goa, já têm suscitado várias manifestações populares de protestos hostis, reforçadas pelos relatórios desfavoráveis por parte de vários cientistas e figuras ambientais. Um exemplo do possível resultado ao ataque à biodiversidade de Goa: Segundo a Goa Bird Conservation Network, na pequenina Goa de 3700 km2, habitam 35% da avifauna do subcontinente indiano abrangendo mais de 470 espécies de aves. Na lista criada pela IUCN (International Union for Conservation of Nature) existem em Goa muitas espécies de aves em perigo, muitas das quais em perigo grave e algumas em perigo crítico.

É um motivo de muita lástima para este autor que a hulha a ser transportada desde o porto de Mormugão, via Goa, até um local no estado vizinho de Carnátaca, seja de proveniência do país onde eu resido – Austrália – embora algum desconforto que isso provoque em mim seja mitigado pelas manifestações de protesto nesse país também, devido às actividades mineiras hulhíferas consideradas nocivas nesse país, onde não faltam manifestações de protestos enquadradas na oposição à exploração de combustíveis fósseis.

Dos ditos três projectos contemplados, apenas o projecto “Tamnar” da linha de transmissão eléctrica seria, prima facie, potencialmente benéfico para Goa, pois consoante o parecer oficial, essa linha irá ao encontro da altura em que a demanda energética terá chegado a um nível elevado. Deve-se, no entanto, enfatisar que esse benefício seria incidental, pois, segundo fontes peritas, esse projecto visa unicamente facilitar a expansão das redes versáteis de transporte hulhífero.

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A crescente maioria de oponentes dos projectos refere indignadamente que dois dos projectos localizam-se no habitat dos tigres e que os projectos resultaram de uma avaliação mal elaborada de bio-diversidade e de uma falta de Avaliação do Impacte Ambiental (AIA). Faltou, asseveram eles, a verificação se essas avaliações haviam sido elaboradas devidamente baseadas na existência ou não duma bio-diversidade sensível nessa região.

Cientistas, naturalistas, conservacionistas, artistas estudantes e profissionais associados têm manisfestado graves preocupações sobre o facto de que os dois projectos designados a atravessar o santuário de vida selvagem e o parque nacional tenham sido autorizados durante a pandemia de COVID-19 durante a qual era obrigatório o distanciamento físico e as restrições haviam sido adaptadas com o uso de tecnologia, resultando isto numa plataforma virtual para as autorizações, plataforma essa que não é vista como fazendo jus por não terem podido levar em conta todos os possíveis factores no processo da autorização.

Para se abrir o caminho para os três projectos de infra-estrutura, compreendendo o alargamento da linha férrea e da auto-estrada, bem como a instalação da linha de transmissão eléctrica, receia-se que somente em Molém, as árvores a serem derrubadas totalizariam em dezenas de milhares, sendo que ela faz em grande parte duma floresta protegida e um corredor crítico de vida selvagem.

Se os temidos projectos forem excutados não obstante a oposição do povo goês, não faltará quem questione o mérito da proclamada descolonização da sua terra. Sob o ponto de vista do meio ambiente, aparte a já referida ameaça à saúde e ao ambiente derivado da poeira proveniente da actividade hulhífera, o desafio de natureza populacional será inimaginável, pois o influxo do povo não goês tanto para a mão de obra como para as operações e manutenção dos projectos tenderá a ser de envergadura insuportável.

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Portanto, nessa ordem de ideias, e visto desapaixonadamente, Goa, cuja população compunha-se quase exclusivamente de nativos goeses, está, desde 1962, a ver a sua transformação inexorável e diluição étnica em consequência do influxo do povo do resto do subcontinente. O património do goês está a ser crescentemente sujeito a decisões caprichosas e irrazoáveis fora do seu controle e fora da sua própria jurisdição. 

Os grandes projectos de infra-estrutura nos quais já me debruçei atrás sobrepujam o nosso pequeno e frágil torrão e, se levados a cabo não obstante as grandes manifestações de oposição ora em curso em Goa inteira, acabarão um dia por colocar os goeses na lista da IUCN das espécies sob ameaça de extinção, não devendo esta catástrofe demorar muito em fixar o último prego no caixão de Goa do último gôes.

Quo vadis, Goa? Extinctionibus?

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