Tinha eu 15 anos durante a fase final da independência da Índia.
Aos 18 de Junho de 1946, no tempo do governador do Estado da Índia José Silvestre Ferreira Bossa, muitos dos jovens da minha idade foram à Margão para ouvir Ram Manohar Lohia, adepto de Gandhi que esperava inspirar e convencer os goeses para começar a luta para terminar a ocupação portuguesa. Lohia foi imediatamente impedido de falar à força da pistola do Capitão Fortunato Miranda administrador do concelho de Salcete, que estava acompanhado do chefe da policia de Salcete, Julio Martinho de Figueiredo. Lohia foi forçado a abandonar Goa.
Simultaneamente, José Inácio de Loyola conhecido como Fanchu, começara a escrever nos jornais em Bombaim e Goa, artigos fogosos contra a administração e legislação portuguesa e louvar a ação doLohia, no diário de Bombaim Free Press Journal e no jornal semanal bilingue Gomantak Praja Mandal do Julião de Menezes, o que fez com que fosse procurado pela policia em Goa, capturado em 11/10/1946 na estação ferroviária de Colém enquanto tentara escapar a Bombaim e condenado pelo Tribunal Militar Territorial do Estado da Índia. Juntamente com outros nacionalistas goeses Dr. Rama Krishna Hegde, Laxmikant V. Bhembre e Purushottam Kakodkar condenados pelo mesmo tribunal, foi deportado para a prisão em Peniche/Portugal onde já se encontrava um outro condenado, o nacionalista goês Tristão da Bragança Cunha.
Estes acontecimentos políticos produziram grande incerteza na mente dos jovens da minha idade, sobre o resultado das negociações entre Salazar e Nehru a cerca do futuro do Estado da Índia. Os goeses, como outros cidadãos na Índia vizinha (especialmente em Bengala), tinham sofrido economicamente durante a segunda guerra mundial com grande escassez de viveres principais (arroz, açúcar, óleo de coco, petróleo, etc.) o que levou ao seu racionamento e distribuição apenas às famílias com senhas. Em Goa, foi criada a Comissão de Abastecimentos, chefiada por um Capitão Mário Santos.
Muitos goeses que tinham emigrado nos anos 30 para a África inglesa e portuguesa ou para partes da Índia como o presente Paquistão, Bombaim e Calcutta, viviam com certo conforto e tinham ajuntado algumas economias. A maioria dos goeses residentes em Goa, queria gozar da sua atitude tradicional de laissez-faire (sossegado), sem mudanças radicais no palco político. Nos fins dos anos 40 a possibilidade de explorar e exportar minério de ferro e manganês, para o Japão, começou a dar um certo ímpeto de esperança econômica à minha geração. Exatamente nesta fase, começaram muitos não-goeses a descobrir oportunidades econômicas adormecidas em Goa, na área do minério como aves da rapina descobrem a sua presa. A Compagnie de Mines de Fer de Goa que foi a primeira empresa a começar a extração de minério em Bicholim em 1911, deixou de existir a partir de 1937. As concessões mineiras caducadas da companhia francesa foram registadas em nome de Marcos Marcelino de Sousa, empregado da companhia inglesa, Bird & Co de Calcutta e posteriormente integradas na firma de Dempo & Sousa.
Em 1947, V. D. Chowgule natural de Kolapur, que obteve concessões mineiras exportou as primeiras 1500 toneladas à Checoslováquia e logo em 1950 enviou 9000 toneladas para o Japão.
Damodar Juthalal, oriundo de Diue negociante de copra, cajú, chá etc., aventurou-se em explorar e exportar ferro em pequenas quantias em 1948.
Para eficazmente combater o deficit económico de Goa, o governador Fernando Quintanilha Mendonça Dias começou a facilitar as concessões de explorar as minas de ferro de alto teor a goeses e não-goeses e em fins de 1950 o numero de concessões mineiras já tinha ultrapassado 60.
Recordo-me que foi em fins do ano 1950, no auge da crise do Padroado Português no Oriente, que o enviado de Portugal Baltasar de Castro chegou a Goa para iniciar o projeto da restauração dos antigos monumentos de Velha Goa, em vista da exposição dos restos mortais de S. Francisco Xavier em 1952. Resultado conhecido deste projeto foi a remoção da camada protetora de cal e gesso da Basílica de Bom Jesus, da Capela de S. Catarina e do Arco dos Vice Reis deixando os monumentos desprotegidos às ações maléficas das monções e do ar salino. É neste contexto que achei apto e comovente, rever e reler o seguinte artigo de fundo do então editor do O Heraldo Amadeu Prazeres da Costa na edição de 15 de Dezembro de 1950. Neste artigo, Amadeu exorta os goeses emigrados para voltar a Goa e tomar as rédeas econômicas nas suas mãos.
Algumas recordações (1946-1950)

