Nenhum asteróide, de proporções gigantescas, caiu sobre a face da terra, nem uma superpotência tomou a iniciativa de desencadear uma guerra mundial, mas um ser minúsculo, invisível a olho nu, desrespeitou as fronteiras, entre Estados e Nações, criadas pelo homem, desafiou os detentores dos arsenais nucleares e demonstrou serem inúteis as suas poderosas armas defensivas e ofensivas.
Ele invadiu os seus territórios e pôs a vida do avesso em quase todos os países do mundo, originando uma crise global, jamais presenciada na história da humanidade, provocando impactos devastadores em todos os sectores da sociedade, em especial, no económico, social e humano.
Enquanto investigador de história, embora apreensivo, tenho a vantagem de poder analisar presencialmente esse facto real por viver neste período da transformação histórica. Há uma diferença abismal entre estudar, com base em escassos documentos, como por exemplo, a Peste Negra de 1348 em Portugal, que pode ter matado cerca de um terço da população portuguesa, e viver uma pandemia em si e ao vivo, ao mesmo tempo como sujeito e objecto de estudo.
As estruturas sociais, tidas por firmes e estáveis, construídas e reconstruídas ao longo dos séculos, e há bem pouco tempo consideradas os pilares mais consistentes da sociedade, estão a ser duramente flageladas, quer interna, quer externamente. Elas dão sinais de se poderem desmoronar aos poucos, apesar dos colossais esforços feitos pelos governantes para as manter erguidas.
Nesta conjuntura internacional e, sobretudo, nacional, carregada de dúvidas e incertezas, os estudiosos mais influentes, sobre os órgãos decisores governamentais, chegaram à conclusão de que a crise pode ser passageira. Eles admitem podermos ter, daqui a alguns anos, o nível da vida que possuíamos em 2019, e acham que a ideia predominante, a difundir pelo país, deve ser a de trabalhar para regressar, o mais rapidamente possível, ao nível socioeconómico anterior. O abalo sofrido corroeu os alicerces em que se assentava a sociedade e criou novas dinâmicas, cujos contornos e influências se podem assemelhar aos rios tumultuosos que arrastam tudo na sua passagem.
Se, por um lado, o coronavírus não perde oportunidades para se alojar, multiplicando-se em cada contacto efectuado, por outro, provoca mudanças súbitas e inesperadas, no tecido social, destruindo empregos, principalmente, os precários, e lançando na miséria famílias inteiras, em especial, as de parcos recursos, deixando-as mais vulneráveis e fazendo-as sofrer maiores perdas do que aos membros da sociedade mais ricas.
Em resposta a esta onda devastadora, onde o confinamento e o desconfinamento eram palavras de ordem, os serviços essenciais tinham sido autorizados e o teletrabalho, tanto quanto possível, generalizado.
Como a história tem comprovado, em momentos de crise global, o sector económico é o primeiro a sentir os efeitos das mudanças, seguido do social e finalmente do mental. Para remediar as consequências mais atrozes da pandemia, onde o ser humano é permanentemente ameaçado, quem governa tem a obrigação de se preocupar, em primeiro lugar, em salvar vidas e depois em alimentar os seus concidadãos.
A tomada dessa opção política, ditada pelas exigências circunstanciais, provoca gravíssimos danos colaterais. Além de causar razias nos mais desfavorecidos, coloca também determinados serviços e profissões, outrora pujantes, nas ruas de amargura. Por mais que alongue a sua mão protectora, a rede estendida pelo Estado não chega para acudir a todos os desesperados, razão pela qual cada pessoa necessita de saber fintar a morte e lutar para sobreviver. A confiança, palavra tantas vezes repetida por António Costa, primeiro-ministro de Portugal, pode ser a palavra-chave para chegarmos a bom porto.
Com responsabilidade, confiando e apoiando-nos uns nos outros, temos de ultrapassar as dificuldades, utilizando o desembaraço, a criatividade e capacidade de improvisação, como tantas vezes temos feito ao longo da nossa história.
Mesmo avassalado pela dor, mas sempre guiado pela luz da esperança, ninguém pode esmorecer, todos temos de colaborar, inovando em função das necessidades, reinventando quando a invenção se revela ultrapassada e aprendendo a trabalhar convivendo com o novo vírus.
Comparando duas imagens da poluição na China, uma do passado recente, tirada das alturas, por satélite, durante o pleno funcionamento do país, e outra em confinamento, podemos inferir que o COVID-19 não é só um aviso, mas pode ser também uma fonte de inspiração, pois indica o caminho a seguir para a sobrevivência da humanidade.
Sabemos como os rostos invisíveis da alta finança influenciam e governam o mundo, umas vezes pressionando, outras vezes manipulando os poderes instituídos e forçando-os a conduzir as suas actividades em função dos seus lucros.
Cumpre-nos a nós, cidadãos anónimos, principalmente aos mais jovens, impedir que regressemos aos velhos modelos, povoados de injustiças, e lutar para alcançarmos um mundo melhor para todos os seres humanos, sem excepção.
Cada um, individualmente, e todos juntos estamos obrigados a lutar para criar um mundo inclusivo e sustentável para todos como pediu António Guterres, Secretário-Geral das Organizações das Nações Unidas.
Durante o confinamento, a maioria dos portugueses, de um modo geral, cumpriu as suas obrigações, daí os resultados não terem sido tão maus como se admitia. Mas como era impossível vivermos permanentemente fechados no casulo e em virtude do país não aguentar outra quebra económica, como a provocada durante o estado de emergência, as autoridades convidaram os seus concidadãos a regressar ao modo de vida anterior à pandemia, com algumas restrições, pedindo, todavia, para não baixar a guarda nem relaxar a defesa perante o vírus que teima em circular entre nós.
Em sua consequência, deu-se um aumento preocupante de casos COVID-19 e com a reabertura das escolas teme-se o pior. Mas pela experiência acumulada, acreditamos que os serviços de saúde irão fazer todos os esforços para estarem à altura das circunstâncias.
No meio deste drama universal, quando acordamos todas as manhãs, devemos valorizar o facto de termos sido poupados e dar o nosso obrigado a quem está na linha da frente a combater a pandemia, sabendo de antemão que temos de ter o máximo cuidado e conviver com o vírus enquanto permanecer entre nós.

