Muito poucos fora da Ilha de Divar teriam conhecimento do ora famoso Bonderam Festival dessa idílica ilha, não fosse o Departamento de Turismo a explorá-lo em tempos mais recentes e transformá-lo em uma celebração carnavalesca, com carros alegóricos, música, dança e barulho electrónico, atraindo centenas de turistas, de Goa e de fora dela. E depois de tudo, muito poucos, incluindo residentes da ilha, conhecem a verdadeira origem das bandeiras que deram início ao festival.
Para isso temos de fazer uma marcha à ré para um passado prè-colonial, quando o Monte de Malar (hoje S. Matias) era uma ilha separada do Monte de Divar (hoje Piedade). As duas ilhas compreendiam quatro Comunidades, nomeadamente Navelim, Goltim, Malar e Naroá. Os antepassados destas Comunidades, tendo em vista a formação de vastos campos de cultura de arroz e riachos para piscicultura e também vasão das águas pelo sistema de comportas, reconduziramas águas do Mandovi, levantando valados ao redor destas duas elevações e formando uma única ilha, Divar, com casanas e terra firme.
A história das ilhas, principalmente das que ficam debaixo do nível do mar, nomeadamente Chorão, Divar, Jua, Acaró, Cumbarjua, Vanxim e outras como Calvim e Corjuém, mais próximas de Aldona, é uma história multissecular de trabalho aturado, árduo e persistente de reclamação das águas, cheia de sucessos e também reveses, desde que os valados sofriam constantes roturas durante as cheias das monções, que eram muito mais violentas que as de hoje, resultando disso tudo que os cofres das Comunidades se esgotavam mais na manutenção e reparação desses valados.
É neste contexto que devemos ir descobrir as bandeiras de Divar (e de Malar). Elas representam primariamente a resolução pacífica de um problema que surgira, nas brumas de um passado indefinido, entre as Comunidades de Goltim e Malar. Apesar de toda a perícia em construir valados pela qual os Goltenses e Malarenses eram bem conhecidos, ela sucumbia por vezes perante a força subjugante das chuvas torrenciais, que não só transtornavam os penosos trabalhos destes peritos, mas também destruíam os limites comuns dessas duas aldeias, mudando às vezes a topografia das mesmas.
Vamos agora às bandeiras. Segundo reza uma tradição multissecular, em uma certa ocasião, as chuvas ciclónicas, acompanhadas de pavorosos redemoínhos dentro das águas das casanas, acabaram por fazer desaparecer quase totalmente a linha divisória das duas aldeias, que costumava ser marcada por camalhões de mate; pôs-se então o problema da re-demarcação dos limites entre Goltim e Malar. Tendo-se reunido os gancares destas duas Comunidades para o auto da re-demarcação, surgiram desacordos que ameaçavam seriamente a ruptura da paz que sempre existira entre as duas comunas. Foi então que alguém se lembrou de ir chamar os maiorais de ambas as comunidades, que se tinham deixado ficar em casa por motivos de idade avançada. Tendo eles comparecido no local e sendo-lhes reconhecido pelos presentes o superior critério, resolveram eles o problema pacificamente, fixando varas de bambú ao longo da fronteira e hasteando nelas pedaços de panos coloridos à maneira de bandeiras. O hodierno Festival das Bandeiras é, portanto, uma comemoração anual desse acontecimento histórico que enlaçou duas aldeias em uma harmonia que nunca mais foi destruída.
Na era prè-colonial as Comunidades da ilha de Divar celebravam a festa da espiga juntamente com a festa das bandeiras por ocasião da festividade de Ganesh Chaturthi. Quando a população local abraçou o Cristianismo no século XVI, cada Comunidade decidiu escolher um dia diferente, contratando a mesma banda de música e portanto sujeitando-se à disponibilidade da mesma. Assim a Comunidades de Goltim e Navelim, fixaram o seu dia da espiga no quarto Domingo de agosto precedida de festa de Bandeiras no sábado e a Comunidade de Malar escolheu o terceiro Domingo de agosto precedendo o Festival de Bandeiras no sábado. Existem portanto, até hoje, dois Festivais das Bandeiras na ilha de Divar. Com o andar dos tempos, porém, o de Piedade tornou-se mais proeminenete e goza hoje de maior atenção do Departamento de Turismo e do público.
É importante frisar que as Comunidades de Goa são dotadas de uma história multimilenária de coexistência pacífica, abraçando todos os grupos sociais com suas características especiais. É do seio destas instituições (não só seculares mas milenárias) que os goeses de hoje vieram crescendo e vão construindo uma certa ‘identidade goesa’ que os marca como homens de paz e “sossegados,” não no sentido de indolentes, mas como amantes da paz e pacificadores, e por isso mesmo apreciados e respeitados pelo mundo fora.
As aldeias de Divar e Malar têm produzido eminentes personalidades em todos os ramos da actividade humana, como sacerdotes, catedráticos, magistrados, médicos, industrialistas, cientistas, músicos, etc. Entre os membros do clero sobressairam Dom Mateus de Castro, o primeiro goês a ser sagrado bispo (1637), que pastoreou nos reinos de Bijapur, Golconda e Abissínia, seu sobrinho, Dom Tomás de Castro, terceiro bispo goês (1671), que velou pelos interesses da Igreja em Madurai, Maiçur, Cranganor e Canará, Dom Caetano Pereira, Oratoriano, bispo de Ceilão (1843), e Padre Jacome Gonçalves, Oratoriano, companheiro de São José Vaz, conhecido como o Pai da Literatura Católica do Sri Lanka e que foi autor de dicionários e de 22 livros em Cingalês, 14 em Tamil, 5 em Português e 1 em Holandês. A fama da sua santidade está-se alastrando hoje pela Igreja do Sri Lanka e não tarda que se encete o processo da sua canonização. Temos também os Menezes, os Costas, os Herédias, os Alburquerques, Pereiras, Azavedos, Regos, Silveiras, etc. que deram bastante de si à sociedade.
A Igreja de Nossa Senhora de Piedade domina o topo do Monte de Divar, donde se desfruta um lindíssimo panorama que abrange o rio Mandovi, a ilha de Chorão, a cidade de Pangim e Ribandar de um lado e Velha Goa, Jua e o Concelho de Bicholim do outro. Descendo o Monte de Divar, passa-se pela famosa Capela do Senhor Redentor e pela casa do Pe. Jacome Gonçalves, hoje transformada na Escola Paroquial de Piedade.
Percorrendo o interior da ilha vêem-se outros marcos históricos, como a Igreja de São Matias e algumas cavernas no flanco do oiteiro de Malar, hoje protegidas pelo Archaeological Survey of India. Daqui a estrada continua até Naroá, passando pela Capela de N. Sra. da Candelária, de curiosa traça, e se dirije à Igreja do Espírito Santo de Naroá, perto da qual podem-se ver as ruínas do Forte de Naroá. Mais no interior vêem-se as ruínas do antigo templo de Saptakoteshwar e do tanque dos Jainistas (Jains), do tempo dos Kadambas. Divar é na verdade uma ilha que respira história!
Crescat et Floreat.

