Padre Chico – ídolo e mentor da juventude

Honorato Velho

Foi em Junho de 1958, tinha eu 15 anos e vinha do Instituto Abade Faria de Margão. Admitido no Lar dos Estudantes do Altinho, juntamente com alguns outros jovens que também entravam nesse dia, fomos recebidos pelo Diretor, Pe. Chico, com palavras de boas vindas e um sorriso afável, suave e protectivo que nunca mais pude esquecer. 

Pouco depois, os miúdos do 1⁰ e do 2⁰ ciclos foram despachados para o 1⁰ andar do novo edifício. Nós, os do 3⁰ ciclo acompanhamos o Pe. Chico para a casa antiga situada à ilharga, que tinha sido residência do meu co-aldeano Dr. Froilano de Melo, onde fomos acomodados.

Nos dois anos que vivi no Lar sob a tutela do Pe. Chico, fui influenciado pela sua personalidade multifacetada.

Nessa tarde a maioria dos laristas esteve nos campos de jogos até ao pôr do sol. Nós outros, como era o 1⁰ dia, arranjamos as nossas camas, malas e cabides, fomos mais cedo ao banho e esperamos para o que iria seguir.

Para mim o banho foi uma nova aventura. Acocorados debaixo das torneiras ao ar livre, banhamo-nos da água fria, embora tivéssemos sido avisados por Pe. Chico com maneiras afectuosas e gentis que podíamos utilizar água quente da cozinha e usar as banheiras recentemente construídas.

Após o banho passamos o tempo em conversas e brincadeiras quando certos caloiros foram alvo de paródias um tanto pesadas com intenções de aproveitar das guloseimas que trazíamos nas malas.

Lá pelas 7.30 o Pe. Chico, sorridente e a bater as palmas passou pelos nossos quartos. Era a sua sublime mensagem para marcharmos para o terço.

A capela…a capela tinha uma arquitetura esquisita e magnífica, muito diferente das grandiosas igrejas – tipo mosteiros – que eu estava habituado a visitar no sul de Goa. Uma grande cruz sobre a porta do fundo; cruzes menores entre as ogivas de cada uma doutras portas. Era uma arquitetura especial de uma beleza estilizada. Produto de uma inteligência e imaginação acima do normal. Repito, era o produto da dedicação que o Pe. Chico tinha pela Cruz do Senhor que ele sempre levou às costas a sorrir!

Depois do terço e de uns momentos livres, fomos ao refeitório, uma vasta casa de jantar com 16 mesas de 8 assentos cada. No fundo, o piano. À frente desse piano Pe. Chico, um grande conhecedor e apreciador de música, estava à espera que todos entrássemos. Quando ocupamos os lugares previamente marcados, sempre sorridente, deu-nos uns conselhos, nas suas suaves maneiras, para serem observados e enraizados na nossa vida quotidiana. De um deles, nunca me esqueci, pois também o tinha ouvido na minha família. Hoje, 63 anos mais tarde, ainda sigo à risca o que nos foi aconselhado nessa noite : “nunca deixem ficar restos da comida no vosso prato, pois lembrem-se de que há gente que passa a noite à fome.” E disse isto com certa emoção que a voz lhe traiu, o que me levou a ficar com a impressão que o nosso diretor auxiliava os necessitados da vizinhança.

Ao jantar seguiu-se uma roda de jogos de ping-pong nos quais o Pe.Chico participou. Admirável! Seguiu-se a hora de estudo, uns sussurros e depois, todos para a cama para um sono solto.

Na manhã seguinte, ao som das palmas e das palavras suaves do Pe. Chico vimos o sol nascente. Era o costume acordarmos dessa maneira. 

Ao fim das rápidas abluções, dirigimo-nos à capela para a missa quotidiana. A seguir, ao refeitório para o pequeno almoço, onde o sorridente Pe. Chico já estava à nossa espera junto do piano. Quando nos sentamos, usou da palavra e com uma voz e maneiras ternas nos informou que nenhum larista, estudante do Liceu, era permitido a descer a escadaria imponente e visitar a Baixa. 

Muito mais tarde compreendi que este conselho tinha por finalidade evitar que os jovens laristas adquirissem hábitos e vícios comuns nessa tenra idade. O seu alvo era o bem-estar da juventude sob a sua tutela. E era imenso o prazer em obedecer as ordens e sugestões que nos dava com interesse e afeição.

Acabado o pequeno almoço descemos a correr para as aulas do 1⁰ dia no Liceu. Seis novas disciplinas e bons professores com uma metodologia moderna. Tudo isto era uma nova experiência! Passamos o intervalo na cantina para um chazito e cones de creme, porque não se podia jogar à bola no pátio, pois o contínuo a caçava. Ordens do Reitor!

Regressamos à sala das aulas. E qual não foi a minha surpresa ver o Pe. Chico no estrado circundado dum grande grupo de alunos. Era visível ao olho nú que o nosso padre-mestre da disciplina de Religião e Moral era uma figura extremamente popular. Foi imenso o prazer assistir a esta aula, pois pela primeira vez ouvi da boca de um sacerdote um conceito que dantes ignorava. Sempre tinha ouvido dizer que Deus castigava e punia. Nesta aula foi frisado que Deus era um pai cheio de Amor. Que versão tão diferente e apreciável ! E foi este o conceito universal seguido por Pe. Chico durante os seus contactos com a juventude. 

No fim do dia lectivo regressamos ao Lar…e depois do almoço seguido duma soneca, lá estávamos no campo de futebol já cheio de jogadores calçados. Do modo como “chutavam” na bola, compreendi que aquilo estava fora das minhas capacidades futebolísticas da época. Falava-se dos Pelés, Vavás, Didís – uma linguagem estranha para mim.

Quando os selecionados cercaram o Pe. Chico que estava lá no meio do campo, ouvi-o dar-lhes as seguintes instruções: “parem a bola com um toque muito leve e amorteçam (a bola) antes de passá-la.” Dias depois, quando consegui entrar no campo segui essa técnica de “amortecer”. Não só no futebol. A técnica do “amortecimento” auxilia a enfrentar e até superar as dificuldades na vida. Foi essa, mais uma dádiva que adquiri das suas exortações.

Dias mais tarde desapontados, tanto no campo de futebol como no do voleibol, este sempre cheio dos medicinistas, aproximamos do nosso diretor, explicamos a nossa situação e sugerimos um campo de Basquetebol; e qual não foi a nossa surpresa quando dentro de um mês o trecho inclinado da rua ao lado da capela já se tinha transformado num belo campo, melhor do que tínhamos sugerido, produto da sua dedicação, supervisão e de uma gerência impecável! Aceitamos penhorados essa oferta do seu interesse e afeição.

E não foi o Pe.Chico quem após treinar a Académica, transformou-a numa equipa quasi-invencível?

Jogava o ping-pong com os laristas, tocava o piano quando livre pois tinha uma veia musical e passava longo tempo na capela a rezar. Era uma personalidade completa!

A Tuna Académica, composta de três medicinistas e da melhor fadista da época, era treinada e guiada por Pe. Chico. E as práticas se realizavam no nosso sector. E nós éramos a assembleia! 

Sempre quando vejo fotografias do Papa Francisco com a batina branca sem botões e cordões encarnados, lembro-me do Mons. Francisco (padre Chico) que foi o precursor do uso da batina branca sem a regalia encarnada demonstrando assim a sua humildade personificada.

Tenho imenso a ser relatado acerca deste reverendo sacerdote mas as Notas Soltas não me oferecem mais espaço.

Para terminar. Achei que o Pe. Chico foi um homem bom, honesto, afável, fino, nobre; e amigo de todos, especialmente da juventude.

Este é o sincero preito da minha homenagem pelo 104º aniversário natalício no próximo dia 1 de Fevereiro do sacerdote gentil, cuja memória continua indelével.

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