Portugal visto dos olhos de um jovem hindú goês

Dhruv Usgãocar 

esde que entrei na oitava classe da escola secundária em Goa, tive interesse em aprender a língua portuguesa, sendo um jovem hindu goês que não cresceu com esse idioma ou herdou a sua cultura. Com apoio do meu avô, o advogado Dr Manohar Usgãocar que traduziu o Código Civil Português para o Inglês, comecei a aprender português como terceira língua opcional na escola e nunca mais parei esta aprendizagem. Mantive o sonho de um dia visitar Portugal, tendo ouvido falar as histórias do país por diversas pessoas em Goa. Este sonho concretizou-se quando me inscrevi para um programa de intercâmbio de jovens do Rotary Club em 2007 e a seguir mais duas vezes durante o meu Mestrado na Universidade de Goa, através da Fundação Cidade de Lisboa e do programa ForLínGoa organizado conjuntamente pela Universidade de Goa, Instituto Camões e a Universidade de Aveiro.

A minha paixão pela língua portuguesa culminou em Junho de 2014 quando comecei a ensinar português na Universidade de Goa, onde sou Professor Assistente no Departamento de Português. Naturalmente, decidi tirar o meu Doutoramento numa Universidade portuguesa e assim iniciou-se a minha quarta e mais longa estadia em Portugal. Ao chegar no fim desta última estadia, compartilho aqui as minhas impressões de Portugal e dos portugueses.

Sempre fui muito bem acolhido em Portugal e fiquei cativado pela simpatia dos portugueses, que foi independente de eu ser goês. Fiz bons amigos em todas as minhas visitas e continuo aumentar estes laços de amizade até hoje.

Além do povo, o que chamou a minha atenção é a riqueza arquitetural, o grande número de monumentos históricos e de museus num país tão pequeno, bem como a diversidade cultural e gastronómica presente em várias regiões do país. Foi para mim educativo observar a variedade de vinhos, queijos e diferentes maneiras de preparar o peixe e os mariscos, como também assistir as tradições e festivais das cidades e vilas portuguesas, como Aveiro, Coimbra, Porto, Évora, Santarém, Setúbal, Tomar. Existem cidades que não tive a oportunidade de visitar, como Leiria, Viseu e Braga. Tendo crescido com uma base da música indiana, ouvir o fado pela primeira vez em Lisboa, foi para mim extraordinário (criou uma impressão) e apenas bem mais tarde, orientei uma dissertação de Mestrado e descobri as suas ligações com o mandó goês. 

Achei piada ver especiarias indianas a serem vendidas nos supermercados portugueses sob a marca ‘Margão’, sem os compradores saberem que Margão é nome de uma cidade Goesa. A maioria de portugueses que conheci, de várias idades e níveis profissionais nunca tinham ouvido falar de Goa. Foi algo que já tinha observado porque quase todos os portugueses que me conheciam chamavam-me ‘indiano’ e não ‘goês’, e alguns velhotes repetiam a frase, “ …sim, Goa-Damão-Diu, foi o que aprendi na escola, a Índia Portuguesa!” Eu perguntava-lhes, “E mais? O que é que o senhor sabe mais da Índia Portuguesa?” E a resposta: “Mais nada. Foi só uma frase no livro de história”. Decidi investigar mais, particularmente o ensino da história nas escolas portuguesas. Ao conversar com uma série de pessoas de várias idades, apercebi que o ensino da história do Império Português concentra-se muito mais na África e no Brasil, restringindo Goa a talvez uma frase só, que Goa, Damão e Diu (como se fosse uma entidade) constituía a “Índia Portuguesa”, e que a ênfase estava mais na Índia Portuguesa do que em Goa. Foi interessante observar como o Estado Novo foi quase apagado da história do país. Foi uma decisão consciente de enterrar uma fase complicada da história e avançar no século XXI como um membro integral da União Europeia. Portugal procura hoje mais contacto com a Índia, que é uma potência emergente, através de Nova Deli, Bombaim e Bangalore, mas não através de Goa.

Descobri eventualmente que uma grande maioria dos portugueses conhecem apenas “Índia” e querem mais contacto com a Índia e não com Goa. É possível que seja essa a razão por chamarem nos media, o primeiro-ministro português “de origem indiana” e não ‘goesa’, “indianos com passaportes portugueses” em vez de “goeses com passaportes portugueses” e muitos portugueses chamarem os restaurantes goeses como ‘restaurantes indianos’. Um outro fator importante quanto à presença da indianidade e não de goanidade é o número crescente de imigrantes em Portugal provenientes de Bangladesh, Nepal, Punjab na Índia e Punjab no Paquistão em Portugal, que pelos vistos são quase 100,000. Estes trabalham em todos os sectores do comércio, como mercearias, cafés, restaurantes, construções, lojas de telemóveis, mercados, kebabarias e até como motoristas e donos dos quiosques. Acho que a inúmera presença do grupo de emigrantes com rosto e pele escura, mas sem aparências óbvias africanas, leva a muitos portugueses a pensarem que estes emigrantes são ‘indianos’. Muitos deles já obtiveram nacionalidade portuguesa, já têm cartão de identidade e passaporte português e são hoje donos das mercearias, cafés e restaurantes. Os filhos destes ‘indianos’ que hoje frequentam escolas portuguesas e falam sem nenhum sotaque estrangeiro e que começaram a sua integração na vida portuguesa, um dia vão sentir como verdadeiros portugueses.

O tema previsto para o meu doutoramento era, “Goa como um ponto de encontro entre a Índia e o mundo lusófono”, que eventualmente abandonei por causa da falta da viabilidade, nomeadamente o facto de Goa não mais existir na mente portuguesa, chegando até ao ponto da necessidade de ‘indianizar’ espetáculos da cultura goesa para os tornar mais vendáveis. Após estas observações, alterei o tema para a “Diplomacia Cultural da Índia em Portugal”, cujo objeto de análise será a presença e promoção de várias manifestações da cultura indiana, mais notavelmente o yoga, que nos recentes anos teve neste país uma difusão massiva. Neste sentido, achei curioso que foi uma telenovela brasileira, “O Caminho das Índias” de 2009, que teve um papel importante em gerir o interesse pela cultura indiana em Portugal, mas do que me parece, uma ideia “orientalista” da Índia está firmemente fixada nas imaginações dos portugueses.

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