Era assim que o Jardim Garcia de Orta era popularmente conhecido. Talvez porque fosse o primeiro jardim a cargo da Câmara Municipal de Pangim, construído em 1855, como consta da placa logo à entrada do Jardim. Mais tarde viriam mais três, o Jardim Francisco Luís Gomes, no Campal; o Jardim da Sereia em frente da antiga Navegação, perto da Fazenda, e o Jardim/Parque Infantil na Avenida D. Bandodkar, ao lado do Instituto Menezes Bragança. Esses jardins foram inaugurados em 1952 pelo Comandante Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar, na ocasião da sua visita a Goa e ficaram também a cargo da Câmara Municipal.
Havia poucas opções de lazer em Pangim. Além do Cine Teatro Nacional e do cinema El-Dorado, Pangim não tinha espaços e nem escolhas onde a população pudesse espairecer. Era, pois, nesse Jardim Garcia de Orta, devido a sua localização central, que os Ponjekars, especialmente a geração mais velha passava as tardes e encontrava com amigos. Nessas tardes os mais velhos punham a conversa em dia, onde naturalmente não faltava bisbilhotice. Havia bancos ‘reservados’ para senhoras de um lado (conhecidos como bancos de má-língua) e outros do lado oposto para os cavalheiros. Os jovens não se sentiam atraídos em passar as tardes no jardim e muito menos passar pelo lado onde as senhoras se sentavam, pois depois do costumeiro cumprimento, a pergunta clássica era “cujo/a filho/a és?” E daí seguia-se um verdadeiro interrogatório. Por essas e outras razões preferiam ir de bicicleta à praia de Gaspar Dias, hoje Miramar. As crianças eram as que mais se divertiam, aproveitavam o vasto espaço do jardim para as suas correrias e brincadeiras.
As atividades no jardim eram pouquíssimas. Às quintas e aos domingos, contratada pela Câmara, tocava a banda do mestre Caiado. Nesses dois dias, principalmente aos domingos notava-se um maior número de pessoas que vinham para se deleitar com a música do mestre Caiado. Nos meses de abril e maio, o jardim tinha poucos visitantes. Os residentes da cidade e dos arredores iam à praia de Gaspar Dias aproveitando-se do transporte gratuito oferecido pelo Governo. No mês de dezembro os estudantes de Medicina organizavam a sua feira anual que durava uns quatro dias. Nos últimos anos, o Centro de Informação e Turismo, chefiado pelo Professor Mártires Lopes, organizou algumas atividades, uma delas foi a feira de livros que foi muito concorrida e palestras, onde os palestrantes falaram do coreto para o auditório que se encontrava sentado em cadeiras à volta dele. Estava também programado um concerto do Conjunto Português de Acordeões, mas este infelizmente nunca se concretizou.
Depois da anexação de Goa à Índia, a Câmara Municipal de Pangim teve que mudar de designação e passou a ser Corporation of the City of Panjim (CCP). Numa iniciativa dessa Corporation, em 2010, o Jardim foi renovado, mas o nome foi mantido, e hoje é um dos mais bonitos jardins de Goa, onde são organizadas atividades para crianças e adultos, com música ao vivo, e feiras de toda a sorte.
Dar o nome de Garcia de Orta ao primeiro jardim de Pangim, foi uma bem merecida homenagem ao grande médico e botânico português. Orta era filho dos pais que eram cristãos-novos, (judeus obrigados a se converteram ao cristianismo, mas que não deixavam de praticar o judaismo), que se estabeleceram em Portugal quando expulsos de Espanha pelos reis católicos, Fernando e Isabel. Garcia de Orta estudou em Espanha, na Universidade de Salamanca e foi durante o seu percurso universitário que surgiu o interesse pelo estudo de plantas medicinais. Infelizmente também em Portugal os judeus e os cristãos-novos começaram a serem perseguidos pela Inquisição e devido a esse facto, muitos decidiram deixar o país que os tinha acolhido e a procurar novos caminhos. Alguns vieram para a Índia, incluindo Garcia de Orta.
Não só para se livrar da Inquisição mas também porque queria conhecer o mundo, Garcia de Orta, embarcou para a Índia a 12 de março de 1534 como médico pessoal do nobre Martim Afonso de Sousa que foi capitão-mor em Goa e mais tarde seu governador. Após o regresso do governador a Portugal, Orta decidiu permanecer em Goa onde se familiarizou com a literatura médica da Índia e com a grande variedade de plantas e resinas utilizadas para tratar doentes. Como médico conceituado que era, foi muito procurado pelas figuras importantes do meio político e social, como o sultão Nizam Shahi de Ahmednagar e os sucessivos vice-reis e governdores de Goa. Como recompensa dos seus serviços e pela amizade que as autoridades tinham por ele, foi-lhe dado o foro da Ilha de Boa Vida que mais tarde fez parte de Bombaim. Nesta ilha Orta construiu um solar e um vasto jardim botânico.
O tribunal de Inquisição foi estabelecido em Goa em 1560, dois anos depois da morte de Orta, em 1568. Embora nunca tivesse tido problemas com a Inquisição, a sua família foi perseguida depois da sua morte. A sua irmã, Catarina, foi condenada por judaísmo e queimada viva num auto-de-fé em Goa. Ele próprio não foi perdoado. Mesmo depois de morto, a 4 de Dezembro de 1580 os seus ossos foram exumados e queimados em auto de fé juntamente com exemplares do seu livro.
Embora Orta já não existisse mais, a sua grande obra, Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia, que era um reflexo do seu convívio com os seus homólogos Árabes, conhecidos como Hakumas e Hindus conhecidos como Vaidyas, perdurou. Havia doenças que ele via pela primeira vez e observou que eram tratadas, usando a medicina Yunnani e a Ayurveda. A obra, um misto de medicina, farmacologia e filosofia natural, revolucionou os conhecimentos da Europa. Orta foi o primeiro europeu a descrever a origem e as propriedades terapêuticas de plantas exóticas e de drogas orientais..
O Livro está organizado sob a forma de colóquios, o que era bastante comum naqueles tempos. Como seu oponente criou o imaginário Dr. Ruano, um médico espanhol que teria vindo de Lisboa para Goa. Os debates entre os dois representam as duas visões opostas do mundo científico. Uma a do homem das Escolas, outra a do homem que baseia o seu conhecimento na observação, na experimentação e no pensamento independente. À primeira vista o vocábulo ‘Simples’ pode parecer tratar-se das pessoas simples, humildes. Mas na verdade Orta refere-se às mesinhas, tipo poções que o farmacêutico da aldeia preparava, e os chás com ervas que as nossas avós nos davam quando adoeciamos, e que curavam tudo, desde a tosse, a gripe e até a diarreia!

