Pediram-me alguns dos meus condiscípulos no Liceu, que rabiscasse umas linhas sobre a nossa Alma Mater, onde passamos bons tempos da nossa infância e adolescência, com imensa alegria, gargalhadas, brincadeira e até pouca turbulência, mas sempre geralmente, sem malícia. Longe de Pangim, onde o Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, que tinha um corpo docente competente e dedicado, produziu homens e mulheres de envergadura, o nosso Instituto do Abade Faria em Margão não ficou muito para trás, pois muitos deles, principalmente os de Salcete ou melhor do Sul de Goa, iniciaram a sua carreira escolar em Margão e prosseguiram ou melhor concluíram o curso liceal em Pangim.
Consta-nos que por um decreto de 3 de Abril de 1913, fundaram-se em Goa além de 20 escolas primarias nas então chamadas Novas Conquistas e Nagar Aveli mais dois liceus municipais: o Liceu D. João de Castro em Margão e o Liceu D. Francisco de Almeida em Mapuça. Sabe-se também que estes dois liceus não tiveram longa vida.
Diz-me o meu venerando amigo Rafael Viegas de Curtorim – que apesar de nonagenário, continua a ser um verdadeiro repositório do nosso passado histórico – Deus o guarde como tal por muitos mais anos – que havia em Margão alguns cavalheiros, no primeiro quartel do século XX, altamente competentes, que davam explicações aos jovens para comparecerem aos exames do Liceu. Entre eles, contava-se o Prof. Joaquim da Silva, de saudosa memoria, que mais tarde, juntamente com o Prof. Vinayak Sinai Xeldencar, de Chandor, e mais um cavalheiro, também explicador, DattaV. Poi, de Margáo viria a fundar o Instituto que levou o nome do grande hipnotizador goês, Abade Faria. Embora não possa precisar o ano da sua fundação, consta que foi lá pelos anos 1932 ou 1933 aproximadamente. Nessa altura, já existiam mais dois Colégios Liceais em Margão, o oficial, Liceu D. João de Castroque funcionava no 1o. andar do edifício da Escola Primaria Agostinho Vicente de Lourenço, na Rua do mesmo nome e o Colégio Liceal do Venerável Padre José Vaz, dirigido pelo Pe. Francisco Xavier de Araújo de Loutulim.
Tendo sempre em vista o alto ideal de servir a causa do ensino, um dos relatórios do Instituto reza que “apesar de ser um estabelecimento de ensino particular, a disciplina que nele se mantem, donde resulta a atuação e a ascendência do professor sobre o aluno, explica muito facilmente os lisonjeiros resultados que o Instituto tem conseguido obter nos exames liceais. Há neste estabelecimento um espírito de cooperação e coesão que ligando por estreitos laços de solidariedade professores e alunos, contribuem imenso para a cabal execução dos programas de ensino. O problema de educação moral tem merecido especiais atenções pois pela sua alta importância na vida, sobreleva a todos os outros. É necessário que o ambiente escolar seja um prolongamento do lar e o jovem tenha, na escola, o ensino de educação moral, de que há tanta necessidade nos tempos acuais”. Foi esse, por assim dizer, o lema ou o objetivo a que obedeceu a fundação desse Instituto que teve professores dedicados, distintos e competentes e alunos que, em Goa e em varias partes do mundo se distinguiram pelo seu mérito, talento e integridade. Entre muitos médicos, juízes, outros profissionais e pessoas que ocuparam posições de destaque, tomo a liberdade de mencionar como alunos, o afamado novelista Orlando Costa, de Margão, pai do atual Primeiro Ministro de Portugal, António Costa e Francisco Xavier Menezes, de Curtorim,que viveu algum tempo em Timor e foi nomeado, mais tarde, Governador dum Distrito em Angola.
O corpo docente do Instituto constituiu, por alguns anos, dos Professores Joaquim da Silva (Diretor), seus irmãos Eduardo e Mouzinho, Rev. Dr. José Colaço, mais tarde Reitor do Seminário Maior de Rachol e Bispo de Cabo Verde, a cargo da Educação Moral, V. Xeldencar, D. V. Poi, José Velho, Gopinata Contoco, Bambino Dias, Xencora B. Camotim e Albano Costa. Quando ingressei no Instituto em 1958, muitos deles já não lá estavam, com exceção de Joaquim Silva,- convidado logo a lecionar no Liceu Nacional em Panjim – Xeldencar – que o sucedeu e dirigiu o Instituto até o seu encerramento em 1963 -, Contoco e José Velho. Mas, já lá havia e houve outros: Padres Basílio Furtado, Humberto do Rosário, António Cruz Viegas, Patrício Dias, Dr. Constâncio Roque Monteiro, Yolanda Coelho, Capitão Gaspena, Paulo Costa ( Música) e o Tenente Pe. Eduardo Melo Peixoto, que seguiu para Portugal e em Braga tornou-se uma figura bastante popular e considerada, onde também foi Cónego da Sé.
Por pouco tempo, lecionava-se no Instituto o inteiro Curso Liceal, até o 3o. ciclo e entre aqueles que fizeram o Sexto Ano no Abade Faria conta-se mais um respeitávelancião, já nonagenário mas também bastante lúcido, o Prof. Bonfilio da Cruz que vive em Baga/Velim, antigo Diretor dos Serviços de Instrução, com quem também tive a dita de trocar impressões sobre o nosso Instituto.
Lá pelos anos 1960 o Instituto foi designado como Externato Liceal do Abade Faria.
Depois dos acontecimentos de 1961, embora alguns de nós tenhamos prosseguido os nossos estudos liceais, aguardando equiparação do curso, muitos dos nossos colegas abandonaram à pressa os estudos portugueses e matricularam-se nas escolas secundarias em inglês e tiveram a infelicidade de ficarem prejudicados por um ano. O 5o. Ano ou o 2o. ciclo foi equiparado ao SSC e o 3o. Ciclo ou o 7o. Ano ao 1o. Ano do College. Nessa altura, como era tempo de pequenas explosões, aqui e acolá, a “malta” de alunos, principalmente os finalistas, ocupou-se, as furtivas, em preparar uns pequenos explosivos, sem importância, que rebentaram dentro da escola. Isso irritou bastante o nosso respeitável Diretor, Prof. Xeldencar que, não conseguindo conter o seu desagrado, exclamou “Oh rapazes, os Portugueses não conseguiram salvar Goa e vocês vão faze-lo?”
Desde há uns anos para cá, por iniciativa de Joaquim F Soares (Soarito) e mais uns, celebra-se anualmente na Capela de N. S. de Piedade no Monte de Margão uma Missa em Portugues, seguida de uma reunião de confraternização dos ex-alunos do Instituto do Abade Faria. O ultimo encontro foi em 2020, pouco antes da pandemia ter posto um travão a tudo quanto de bom havia em Goa, porem, do mal continuando tudo, com todo o vigor.
Seria um falta imperdoável, se, ao concluir, não prestasse cá o meu tributo a todos os nossos professores sidos que hoje descansam na paz do tumulo. A eles devemos não só a nossa instrução e disciplina, mas, acima de tudo, os nossos valores e a educação, que bem enraizados em nós, contribuíram bastante para o pouco ou muito que hoje prezamos ser.

