A comunidade católica de Goa tinha tradicionalmente seguido um ritual social nas vésperas de Natal ou seja no dia 24 de Dezembro. Fazia-se uma lista prévia das famílias que viviam no infórtunio, de luto carregado, por terem perdido um ente querido. E então, as donas de casa com o auxílio de empregadas domésticas ou familiares que tivessem a disponibilidade de dar uma mão de apoio, preparavam as nossas delícias tradicionais como o dodol, a bática, a bebinca, os neureos, as carambolas (kulkuls ) e uma variedade de doces como os bolinhos de coco, o pinagre, o doce de grão, as teias de aranha, Oddés, mandarés….
Enchiam-se bandejas ou cestinhos cobertos com toalhas de crochet que as senhoras desencantavam nos gavetões das suas cómodas, adicionava-se fruta, chocolates e enviava-se para as casas enlutadas.
Na altura do Natal, os vizinhos de outras comunidades também recebiam tabuleiros com doces tradicionais como símbolo de continuação de laços de amizade.
Esta praxe está a desaparecer da nossa sociedade talvez por falta de tempo ou por falta de ajudantes na preparação dos sabores locais ou pelo apelo dos audovisuais a um consumerismo desmedido e portanto as tradições natalícias seculares vão-se apagando da nossa memória.
Consoada é um vocábulo português de origem latina e que significa dar consolo, dar comforto e neste contexto a consoada em Goa tinha razão de ser.
Em Portugal, há um século, na noite de 24 de Dezembro as familías deixavam abertas as portas das casas para receber viajantes e peregrinos que eram convidados para participar na ceia de Natal, pois esta festa apela para o espírito de caridade dos cristãos. A consoada ou a ceia de Natal em Portugal, leva as famílias, umas chegando de terras longínquas, a reunirem-se à volta da mesa de jantar comendo uma refeição lauta acompanhada de vinhos e de brindes. No fim da ceia distribuem-se os presentes.
Em Goa, a consoada, um costume social, é uma herança da nossa ascêndencia Hindú. É chamada consoada se for compartilhada pela comunidade católica na quadra festiva natalina, mas noutras ocasiões chamamos à esse mesmo hábito como vhojem. É puramente um habito sociável que era e é até hoje praticado pelos nossos antepassados hindús específicamente pelos Hindus Brâmanes e pelos Bhatts. As conversões não obliteraram essa herança.
Numa entrevista que fiz ao senhor Vinay Khedekar, um perito de profundo conhecimento das práticas sociais e rituais nas festividades de Goa, ele explicou-me que era difícil determinar a data do início dessas praxes mas é indisputável, que foi a comunidade Brâmane que deu origem à esse costume por indicação dos Bhatts dos templos. Na ocasião dos casamentos hindús, o Bhatt esclarecia aos pais da noiva acerca do vhojem e das outras prendas a serem oferecidas ao futuro genro. O vhojem ou o acto de dar qualquer coisa podia ser dividido por várias ocasiões como o festival do Ganesh, do Diwali etc. O senhor Khedekar afirmou que no passado os pais tiveram de vender uns terrenos de propriedades para manter esse costume. Naqueles tempos isso custava umas 15 mil rupias. Bastante dispendioso.
O vhojem consistia de toda a espécie de doces e de comida preparada para as festividades, sem faltar os legumes e fruta da época. Às vezes também se incluía frutos de madeira feitos em Cuncolim ou em Sawantawadi. Toda a oferta era arrumada em cestos enormes, o pettaró, e enviada num carro de bois se as distâncias fossem longas. Havia sempre mulheres que ofereciam os seus préstimos em levar o pettaró para a casa do futuro genro porque eram bem recompensadas com dinheiro e com prendas.
Actualmente o distribuir do vhojem pertence à todas as classes sociais, pois passou a ser imitado pelos empregados domésticos que trabalhavam nas casas dos Brâmanes. Essa praxe, fez nascer uma classe de organizações de mulheres especializadas na confeição do vhojem e assim solver os problemas que a urbanidade e os seus reflexos tormentam o dia a dia dos cidadãos. As ordens devem ser dadas com muita antecedência.
Os pais da noiva encarregam-se de mandar o vhojem ao futuro genro. Embora esse costume implique muitas despesas não se pode esperar que esta tradição seja eliminada ou abolida pois isto ía ferir o nível social dos pais da noiva além de se tornar num tópico de bisbilhotice e mexeriquice nos largos da cidade e nos mercados das aldeias. Durante as festas de São João em Goa, em quase todas as aldeias, é costume a sogra enviar ao genro o vhojem num cesto cheio de fruta local da estação como jaca e manga e de doces feitos de jagra e de arroz e de coco. Ela não se esquece de esconder no fundo do cesto uma garrafa de feni para ajudar o genro a pular num poço na festa de São João.

