A Escola Médica de Goa foi o orgulho da nossa terra

Se Goa hoje se orgulha de ter tido no passado, filhos ilustres que em Goa, no Ultramar Português e em Portugal, levantaram bem alto o nome da sua terra natal, foi decididamente em grande parte, devido a nossa Escola Médico-Cirúrgica de Goa (EMCG), por onde muitos deles marcaram a sua passagem com grande aprumo, distinção e dignidade.

Estava convencido de que a EMCG fundada em 1842, pelo Físico-mor Mateus Rodrigo Moacho, era a mais antiga instituição de ensino médico em toda a Asia. Porém, o Calcutta Medical College e o Madras Medical College foram estabelecidos em 1835 e o Stanley Medical College em Chennai em 1838. A EMCG é considerada a mais antiga escola de ensino moderno de medicina alopática na Asia. 

Reza a história que Afonso de Albuquerque, depois da conquista de Goa, fundou o Hospital Real de Goa junto ao Cais de Santa Catarina em Velha Goa, para o tratamento dos soldados e oficiais do exército português. Este hospital entrou em decadência a ponto de os Jesuítas serem solicitados a administrá-lo em 1579. Os Jesuítas estabeleceram uma escola para ensinos rudimentares de medicina, onde o físico-mor desse hospital começou a chamada Aula da Medicina em 1703 e o cirurgião-mor a Aula de Cirurgia em 1716.

Nos meados do século XVIII, surgiram epidemias e pestes nas colónias portuguesas de Ásia e África e houve necessidade de treinar gente local, pois os médicos de Portugal não se dispunham a ir para outros continentes socorrer doentes naquelas longínquas terras. Goa também ficou imensamente afectada com doenças e pestes virulentas no último quarto desse século, morrendo milhares  de pessoas, o que levou o Vice Rei D. Francisco de Távora a chamar a Velha Cidade, o “cemitério de Portugal”. 

Durante a expulsão dos Jesuítas por Pombal em 1759, o Hospital Real que estava entrando em ruínas, foi transferido para Pangim e alojado no palácio de Panelim nos anexos da Casa de Pólvora, levando o nome de Hospital Militar. Foi neste hospital que começou em 1801 o ensino de medicina com a duração de 3 anos e a partir de 1821 de 4 anos.

Foi neste Hospital Militar que se formou em medicina um outro goês ilustre, Bernardo Peres da Silva de Neura, o único goês a ser nomeado Prefeito do Estado da Índia, equivalente ao cargo de Governador, durante a governação portuguesa. Porém, desempenhou essas funções somente por poucos dias, por ter sido deposto numa revolta militar.

O Hospital Militar foi transferido para o Palácio dos Maquineses em Pangim, em 1842. Este palácio, construído em 1702, pertencera a dois aristocratas portugueses, conhecidos por Maquineses.

As escolas de ensino de medicina dos Jesuítas, o curso médico no Hospital Militar em Panelim, e finalmente a criação da Escola Médica em 5 de Novembro de 1842 pela portaria do governador Conde de Antas, dão-nos a distinção de sermos os pioneiros de medicina na Ásia. Muitos médicos goeses nos séculos XVIII e XIX formaram-se no Hospital Militar de Goa, antes da fundação da EMCG.  

O curso na nova Escola Médica foi inicialmente de quatro anos e os candidatos tinham de ser proficientes nas disciplinas de gramática, desenho, filosofia, humanidades, Português, Latim bem como Francês, pois os livros de estudo eram em Francês. A partir de 1865 o curso de medicina passou a durar 5 anos. Também em 1842 começou a escola de Farmácia e foi adjunta à EMCG- por sua vez a mais antiga da Ásia.

O primeiro grupo de oito alunos que passou o curso na EMCG de Nova Goa em 1846, inclui o Dr Agostinho Vicente de Lourenço, de Margão, um das figuras mais distintas que Goa produziu. Mais tarde, em Paris, Lourenço, abandonou medicina e dedicou-se à química, trabalhando no laboratório do célebre químico francês Charles Wurtz. Tem um busto ao lado dos de Lavoisier, Liebig e Hoffmann na Academia de Ciências em Lisboa bem como um no Jardim Municipal em Margão.

Mais um que se distinguiu como elemento pensante, escritor e orador de envergadura, de renome internacional e parlamentar de grande calibre foi o Dr Francisco Luís Gomes de Navelim. Tem uma estátua em Campal/Pangim e um monumento em Margão.

É difícil traçar em poucas linhas, o prestígio e a glória com que inumeráveis médicos cobriram a sua Alma Mater. Mercê ao seu talento, competência e sacrifícios, eles dedicaram-se inteiramente, em Goa e principalmente no Ultramar a pesquisar as causas e remédios das pestes, epidemias, doenças de sono, etc. para aliviar o sofrimento humano, enchendo de orgulho a nossa terra, que lhes serviu de berço. Entre muitos, dois grandes vultos que o meu pai sempre evocava como seus venerandos mestres foram Drs. Wolfango da Silva e Froilano de Melo, este cientista de fama mundial. Seria impossível mencionar os clínicos que deram imenso do seu saber e competência a Goa e serviram à humanidade sofredora como verdadeiros sacerdotes.

Quando em 1902, a EMCG esteve em vias de extinção, foi um ilustre lente português, Dr. Miguel Bombarda que defendeu com muito vigor e tenacidade a sua continuação.

Em 1963, a Escola Médica cessou de existir, depois de ter formado 1327 médicos e 469 farmacéuticos. O GMC, digna sucessora da EMCG tem feito grande progresso, com médicos e cirurgiões competentes e dedicados. O Departamento de Cardiologia nos tem trazido bastante honra e prestígio devido a extremamente bem sucedidas cirurgias cardíacas.

Nestas poucas linhas curvo-me com reverência e presto o meu tributo às centenas de esculápios que a EMCG produziu, verdadeiros apóstolos, que deram muito do seu labor, suor e sacrifício pela terra e pela sua gente, virtudes essas, hoje algo decadentes, mas que ainda vemos, embora como exceções.

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