Como sacerdote e cultor de música que sou, fui algumas vezes interrogado sobre qual seria a razão porque a Igreja de Goa teria deixado de promover o ensino de música através das suas afamadas Escolas Paroquiais, que tanto talento musical vieram produzindo ao longo dos anos. Hoje, depois de ter recebido ainda um outro inquérito similar, ocorreu-me que houvesse talvez mais pessoas interessadas no assunto. É o porquê desta “nota solta”, que preparei, devo confessar, após uma leitura algo superficial que fiz sobre a matéria.
Já a partir dos meados do século XVI as igrejas de Goa tinham ‘Escolas Paroquiais’ a elas anexas. Eram escolas primárias destinadas a crianças católicas, e o seu programa de ensino, de cinco anos de duração, incluía Catecismo (fé e moral da religião cristã), Leitura e Escrita, Aritmética (as quatro primeiras operações) e Música. Aqui temos de tomar em conta que as escolas primárias oficiais em Goa começam a aparecer só no século XIX. Antes disso, a educação elementar era ministrada principalmente pela igreja, pelo templo hindú (patti-xalla) e por indivíduos ou institutos particulares. E mesmo as paróquias que tinham escolas anexas não passavam de 80. (Antes do aparecimento da Escola Médica, o ensino secundário e superior era geralmente ministrado só nos seminários e nos colégios urbanos das ordens religiosas na Cidade de Goa, hoje, Velha Goa). Embora a música fosse só uma das disciplinas leccionadas nas Escolas Paroquiais, é sabido que alguns alunos dessas escolas alcançaram grandes êxitos no campo musical, especialmente desde a segunda metade do século XIX. Ficou assim estabelecida em Goa, através da Igreja, uma estrutura sólida, ainda que básica, de ensino musical que, eventualmente, produziu abundantes frutos a longo prazo e deu-nos o orgulho de ver alguns luminares goeses a brilhar neste campo, tanto entre nós, como no resto da Índia e ainda pelo mundo fora.
A maioria dos músicos goeses ao longo dos séculos foram produtos das escolas paroquiais de Goa. Eles incluem os principais compositores de música folclórica como o Mandó, o Dekhnni, etc. e Maestros como Anthony Gonsalves – de Majordá, fundador, em 1958, da Indian Symphony Orchestra de Bombaim, que contava 110 membros – António de Figueiredo, Micael Martins, Camilo Xavier e Lourdino Barreto. Entre os vivos podemos salientar Braz Gonsalves, 87 anos de idade, natural de Neurá, ora residente em Porvorim, que fez uma carreira brilhante no mundo de Jazz e é internacionalmente conhecido como o melhor saxofonista da Índia inteira. Muitos outros houve que contribuiram para a vulgarização da música ocidental na Índia, tocando particularmente em cortes dos marajás, hotéis, companhias de cinema, orquestras, bandas e ainda como professores de música. A maioria deles iniciou os seus primeiros passos nas ‘escolas de música’ de Goa.
Estas escolas tiveram seus altos e baixos no respeitante ao ensino da música. Se, no princípio, elas ter-se-iam limitado a ensinar rudimentos da arte de Mozart, nos séculos XVII e XVIII, os seus alunos já deviam saber ler e escrever música a nível muito mais alto. Com tal preparação musical entre os paroquianos, as principais igrejas paroquiais de Goa, para não falar dos seminários, tinham coros polifónicos que executavam Missas, motetes e outras composições de música sacra da autoria de Mozart, Schubert, Palestrina, Turner e outros clássicos.
É oportuno mencionar aqui que, em 1622, quando houve na Basílica do Bom Jesus solenes celebrações por ocasião da canonização de S. Francisco Xavier, sete – sim, sete – coros de nativos, colocados em diversos pontos da grande Basílica, interpretaram um Oratório de Giacomo Carissimi, criado pelo grande compositor barroco para sete vozes. A peça foi executada com tal esmero, que o Legado do Papa Gregório XV, presente na ocasião, exclamou: “Estou em Roma!” Foi tão alto o padrão que as escolas de música de Goa chegaram a estabelecer ao longo dos anos. Outra história de sucesso, mais recente, foi que, até cerca de 1970, quase todas as aldeias de Goa tinham suas próprias bandas de música. A minha aldeia de Benaulim chegou a ter uma com doze figuras, intitulada Banda N. Sra. do Livramento.
Diga-se, porém, em abono da verdade que, por volta de 1950, as escolas paroquiais começam a perder a sua importância na vida da aldeia, devido sobretudo ao crescente número das escolas primárias oficiais. E a disciplina de música foi a primeira a ficar atingida. Ela desapareceu sumariamente do programa de ensino. Foi nessas alturas que os mestres das igrejas se ‘desempregaram’ das escolas paroquiais e, a exemplo de outros músicos da aldeia, passaram a dar aulas de música, independentemente da Escola. À boa hora vieram remediar a situação a Academia de Música do Maestro António de Figueiredo em Pangim e, mais tarde de, a Escola Música do Maestro Camilo Xavier em Margão. As duas instituições tomaram então a dianteira no ensino de música em Goa e foram produzindo músicos de renome.
E que foi feito das Escolas Paroquiais? Após 1961, quase todas elas foram elevadas a escolas liceais de língua inglesa; outras cessaram de existir. Como resultado, temos hoje 62 escolas secundárias anexas a igrejas paroquiais: todas elas descendem da Escola Paroquial da época portuguesa. Além disso, existem outras tantas anexas a conventos de freiras e comunidades de padres religiosos como Jesuítas, Salesianos, Pilaristas, etc.
No começo da década dos setenta o Departamento de Educação introduziu Música como disciplina opcional em escolas de ensino inglês. A partir de então, algumas escolas católicas começaram a ensinar música, dependendo da disponibilidade de qualquer membro do corpo docente que tivesse capacidade e vontade de ensinar música. Era um trabalho honorário, sem pagamento. Trinta anos depois, em 2001, a Direcção de Arte e Cultura do Estado de Goa passou a oferecer subsídio financeiro para a remuneração desses professores voluntários. Aumentou então em certas escolas o número de professores de música e a situação do ensino de música nas escolas ficou decididamente melhor. A partir de 2014, a mesma Directoria passou a nomear e pagar indivíduos full-time para ensinar música (ocidental e Indiana) nas escolas que resolvessem optar pelo estabelecimento desta disciplina.
Resulta daí que muitas escolas secundárias de Goa têm hoje destes professores visitantes que dedicam três horas do período de tarde, uma ou duas vezes por semana, ao ensino de teoria de música (solfejo), violino, piano/teclado electrónico e bateria. Falamos aqui só da música ocidental. Graças, portanto, à Direcção de Arte e Cultura de Goa, cerca de 70 escolas católicas em Goa administram hoje o ensino gratuito de música a alunos interessados.
Desta forma, as Escolas Paroquiais de Goa voltaram, muitas delas, a ensinar música, embora em moldes diferentes dos antigos.

