Foi decerto encomiástica a iniciativa do Editor do O Heraldo, Alexandre Moniz Barbosa e de Homem Cristo Prazeres da Costa, filho do antigo redactor Amadeu Prazeres da Costa, amigo e colega do meu pai no Conselho Legislativo de Goa, de recomeçar uma secção em português, embora apenas semanal.
O português não só foi a língua materna deste prestigioso jornal mas é também de muitos leitores vivos. Portanto, os artigos serão lidos e apreciados não apenas por estes mas ainda por alguns da nova geração que falaram o português desde pequeninos ou que o aprenderam mais tarde.
Nunca se deve odiar qualquer língua, que é um meio de comunicação bem como um tesouro sempre útil em qualquer lugar ou situação. Porém, sempre lamentei que se tivesse dado ênfase aos estudos em português e inglês, daí nunca me ter aperfeiçoado em concani, que é incontestavelmente a língua materna dos goeses.
O concani não morreu, não obstante ter sido desfavorecido durante o regime português em Goa e tenha florescido depois, contudo insuficientemente. Sobreviveu devido ao seu uso em alfabeto romano, tanto nas peças do teatro popular como na escrita, nos livros, nas missas, etc. Infelizmente, a politiquice de certos indivíduos, que foram e são mais leais ao Maharashtra do que à Goa, levou a nossa Assembleia Legislativa a não só dar um lugar especial ao marata, a par do concani, mas também a declarar o uso oficial deste, apenas em devanagárico. Este pormenor poderia ter sido facilmente omitido, mas houve um propósito em incorporá-lo, certamente para desfavorecer um grande e importante núcleo de goeses, que não lêem ou não se sentem à vontade com o devanagárico. Foi um passado inglório, mas o presente é ainda pior, que até mete nojo. É pena, mas é verdade. Debruçaremos sobre esse tema, talvez noutra altura.
O início desta secção marca um novo capítulo na história secular do jornalismo em Goa, que data de meados do século XIX. O HERALDO, fundado aos 22 de Janeiro de 1900 pelo Prof. Aleixo Messias Gomes, mais tarde entregue ao Dr. Antonio Maria da Cunha, foi o primeiro diário, não só de Goa mas do inteiro Ultramar Português. Nenhuma outra colónia deu a Portugal a honra de ter tido tantos diários, semanários, revistas, etc.
Houve publicações oficiais, como a Gazeta de Goa e outras, mas o primeiro periódico de iniciativa privada do Ultramar Português, com imprensa própria, foi O ULTRAMAR, fundado aos 6 de Abril de 1859, em Margão, pelo grande empreendedor e afamado político e membro do Parlamento Português, Bernardo Francisco da Costa. Mais tarde passou a direcção ao seu irmão António Anastásio Bruto da Costa.
Este jornal foi semanário até 1905 e depois bi-semanário e passou por varias vicissitudes, devido a política do tempo em Goa. Foi suspensa a publicação em Junho de 1937 pelo Encarregado do Governo, Craveiro Lopes, devido a um artigo publicado dias antes. A suspensão foi levantada pelo Governador José Cabral em Abril de 1939. Finalmente, cessou-se a publicação em 1942, quando estava a testa o Adv. Antonio Bruto da Costa.
Seguiu-se o semanário A INDIA PORTUGUESA publicado a 4 de Janeiro de 1861 por Roque Correia, de Benaulim, e Manuel Lourenço Miranda Franco, descendente, impresso numa tipografia na Rua do Abade Faria, em Margão. Em 1864, devido a certas divergências, Roque Correia deixou a redacção do jornal e fundou em 1869 A SENTINELA DA LIBERDADE, que durou apenas dois meses.
A INDIA PORTUGUESA cessou a publicação várias vezes e foram seus editores José Inácio de Loyola seguido pelo seu irmão Avertano de Loyola. O jornal renasceu duas vezes com os editores Miguel de Loyola Furtado e Vicente de Cunha Bragança. D. Leonora Loyola Furtado e Fernandes, bisneta de J. I. de Loyola, foi a última editora do jornal até o seu encerramento em 1976.
Houve muitos outros diários e semanários que fizeram a sua aparição mais tarde e não duraram muito. Dos antigos, apenas o O HERALDO e o semanário católico VAURADDEANCHO IXTT, publicação da Sociedade de S. Francisco Xavier do Pilar, fundado em 1933 por Pe. Arsénio Lúcio Fernandes e um grupo de católicos leigos, continuam até hoje.
Dos diários, destacam-se HERALDO, de Pangim fundado em 1908, por Dr. Antonio Maria da Cunha, o vespertino DIÁRIO DE NOITE, fundado por Luís de Menezes, em 1919, e A VIDA, fundada em 1938 pelo Dr. Sales da Veiga Coutinho em colaboração com Dr. António Peregrino da Costa, Pedro Correia Afonso e Rozendo Barreto Xavier, que cessaram a sua publicação pouco após 1961.
É impossível enumerar neste espaço todos os jornais que foram publicados em Goa. Muitos não duraram meses, outros tiveram curta vida. Além das cidades de Pangim e Margão, também foram publicados jornais em Pondá, Bombaim, Quepém, Calangute, etc. Alguns deles eram até bilingues – 12 deles em Português e Marata. Vou mencionar alguns, quase todos não do meu tempo considerados importantes: A TERRA, fundada em 1917, em Raia, por Libério Pereira, A VOZ DA INDIA, fundada em 1926 por Vicente João Figueiredo e editado por Antonio Sequeira, também da Raia, O DEBATE e LUZ–PRACASHA fundados em 1911 e 1928, respectivamente, por Luís Menezes Bragança, BHARAT, em Marata com uma secção em Português e fundado em 1911 por Hegdó Dessai de Quepém, e o DIÁRIO DE GOA do Dr. Álvaro Costa de Margão fundado em 1953.
A política sempre existiu em Goa e é por isso que havia tantas publicações nesta nossa pequenina terra. As polémicas na imprensa eram frequentes. A ditadura e a censura nunca impediram os goeses de exprimirem a sua repulsa por actos contrários aos interesses da terra e a defendê-la com toda a veemência. Se lêssemos as polémicas e os artigos do passado, talvez nos envergonhassemos do que se passa hoje na plena democracia. A Imprensa do passado foi muito mais vibrante e calorosa, onde se ventilavam assuntos importantes e de interesse público. Os que levantavam a voz eram pessoas destemidas e de grande envergadura e como tal merecedoras de grande respeito até do Governo Português. Honra e glória à memória desses e doutros goeses, que longe de se vergarem perante as autoridades, sempre lutaram com desassombro pela liberdade, dignidade e prestígio da nossa terra e da nossa gente, deixando bem vincado o seu nome nos anais do jornalismo em Goa.

