Recordo-me de ter ido em reportagem a Inglaterra para o Diário de Notícias e ficar surpreendido com a referência em vários jornais londrinos de que Keith Vaz, ministro britânico para a Europa entre 1999 e 2001, era “o primeiro ministro de origem indiana num governo europeu”.
Na época era para mim óbvio que pelo menos António Costa em Portugal o tinha antecedido, com a pasta de ministro dos Assuntos Parlamentares em 1997. Mais tarde, fiquei a saber numa reportagem no próprio Diário de Notícias que Alfredo Bruto da Costa, ministro dos Assuntos Sociais em 1979, e André Gonçalves Pereira, ministro dos Negócios Estrangeiros, tinham, tal como o nosso atual primeiro-ministro, raízes em Goa.
Keith Vaz, nascido em Aden no tempo colonial britânico, também tem raízes em Goa como o apelido sugere, o que mostra como a diáspora goesa tem sabido construir um percurso de sucesso em muitos países, às vezes nos mais improváveis, como Simeon Pereira, arcebispo de Carachi, que conheci um dia no Paquistão. Mas a abusiva notícia sobre a ascensão de Vaz a ministro na Grã-Bretanha (na realidade, ministro júnior, espécie de secretário de Estado) fez-me pensar sobretudo como os goeses estão de tal forma bem integrados na sociedade portuguesa que ninguém – nem os jornais – pensa neles como imigrantes vindos da Índia, até porque muitos da comunidade nasceram noutras parcelas do desaparecido império, como Moçambique, ou já em Portugal. Mas sobretudo não pensamos neles como imigrantes porque temos a percepção de que são portugueses há mais de cinco séculos, diria que em especial os católicos, mas não podendo deixar de recordar também como o goês de religião hindu NarainaCoissoró foi ao longo de décadas uma das figuras mais emblemáticas da Assembleia da República, e não pelo nome ou pelo tom da pele, mas sim pela excelência dos dotes oratórios.
A forma como os portugueses de origem goesa estão integrados na sociedade torna-os de certa forma invisíveis. Ao longo da minha vida, sem sequer pensar nisso, fui encontrando-os na repartição pública onde fui tratar do meu primeiro bilhete de identidade, depois na faculdade (ISCSP) entre os professores, mas também o colega de Relações Internacionais que hoje é diplomata, a seguir no Diário de Notícias, onde os primos Mascarenhas eram duas figuras de peso, um pouco a toda a hora, seja no mundo académico, no mundo empresarial ou no mundo político. De Otelo Saraiva de Carvalho, o comandante operacional do 25 de Abril, a Alfredo Nobre da Costa, primeiro-ministro nos anos 1970, tantas são as figuras portuguesas que alegam algum antepassado goês ter, que eu próprio por vezes me surpreendo.
Quando digo a um jornalista estrangeiro que não há hoje um goês no governo português (Costa, que todos conhecem), mas três, a surpresa é total: falo-lhes então de Nelson Souza, no Planeamento, e de João Leão, nas Finanças. Mas também os portugueses podem ficar surpreendidos quando lhes noto que a principal maternidade de Lisboa, a mais famosa mesmo do país, a Alfredo da Costa, deve o nome a um goês, o mais prestigiado obstetra português na viragem para o século XX.
Visitei Goa em 2007. Estive em Pangim, em Margão também, e não deixei de ir a Velha Goa, onde a Basílica do Bom Jesus, onde está sepultado São Francisco Xavier, ilustra tanto o que foi a expansão portuguesa a comércio mas igualmente muita missão. Entrevistei o então ministro-chefe, Pratapsing Rane, e conversei com Maria de Lurdes Albuquerque, que chegou a ser deputada em Lisboa antes da Revolução de 25 de Abril de 1974. Recordo as igrejas brancas no meio do verde tropical, a abundância de apelidos portugueses nas notícias nos jornais ou no nome dos estabelecimentos comerciais. Era a minha terceira estada na Índia e sentindo que Goa é parte da imensa diversidade que faz admirável a Índia também senti haver uma inegável ligação histórica a Portugal, que pode ser bem menor do que no passado – estamos quase a assinalar os 60 da integração na União Indiana – mas não deixa de existir, basta pensar como o centenário O Heraldo decidiu publicar aos domingos faz agora um ano uma página em português, e entre os convidados a escrever nela já esteve o antigo presidente António Ramalho Eanes, que no início da carreira militar prestou ali serviço.
Tenho grande admiração por alguns goeses com quem converso há muito: o Valentino Viegas, o Eugénio Viassa Monteiro, o Edgar Valles. De outra geração, destaco o Constantino Xavier, que ainda há uns tempos, homenageado como académico pelas autoridades indianas, fez questão de incluir no discurso algumas palavras em português, que disse ser uma das línguas da Índia.
Por coincidência, pouco antes de escrever este artigo, oportunidade que agradeço a Cristo Prazeres da Costa (outro goês sempre a lutar pela notoriedade da sua terra), estive a conversar com o historiador Nuno Vassalo e Silva sobre uma exposição patente em Lisboa e onde sobressai o papel cosmopolita de Goa, que já era um entreposto comercial importante antes da conquista em 1510 por Afonso de Albuquerque, mas que ganhou uma centralidade global como capital do Estado Português da Índia. Vassalo e Silva, como o nome deixa adivinhar, é neto do general Manuel Vassalo e Silva, o último governador português de Goa, que caiu em desgraça junto de Salazar por recusar a ordem de combater até à morte, apesar da desproporção de forças evidente nos combates de dezembro de 1961.
Fiel à memória do avô, que reabilitado pelo Portugal democrático foi convidado pelos goeses a visitar o estado, o historiador Vassalo e Silva rejeita saudosismos, mas acredita no potencial que a história legou como mola para o desenvolvimento. Já o antigo presidente Eanes escreveu no mesmo sentido, aqui no O Heraldo. Considerando a Índia uma grande potência, Eanes apontou Portugal como parceiro estratégico, por razões várias, como a pertença à UE, mas também pela influência global da língua portuguesa. E exortou os goeses a reatarem laços: “Natural e inteligente será, também, que ultrapassados os ‘ajustes históricos’ e as suas ‘contas’, Goa e a sua juventude, em especial, entendam que a cultura do seu povo se enriquece, sempre, na relação histórica e civilizacional-cultural com outros povos, nomeadamente com o povo português, com o qual percorreu séculos de história.”
Tenho um grande interesse pela história. Tanto que, embora jornalista e querendo continuar jornalista, fiz questão de fazer um doutoramento em História. E quanto mais estudo o efeito da expansão marítima portuguesa, mais creio que algo de excecional, por muitas contradições que possam ter existido, se deu em Goa e por causa de Goa. Às vezes algo tão simples, mas tão extraordinário, como uma caixa ventó, usada no Japão para o almoço, que acabou por chegar à mesa dos imperadores mogules, com passagem prévia por mãos de comerciantes e artistas goeses – é uma das peças que pode ser vista por estes dias em Lisboa no Museu do Oriente na tal exposição comissariada por Nuno Vassalo e Silva. Uma caixa ventó cosmopolita, tão cosmopolita como a bela Goa.
(Leonídio Paulo Ferreira é diretor adjunto do jornal Diário de Notícias de Lisboa)

