Sabia que a Índia é um dos raros países a possuirem um texto clássico sobre a dramaturgia? O Natyashastra, foi escrito em sânscrito por Bharata Muni à volta de 400 anos AC. Sabia que o teatro pré-moderno não oferecia espaço artístico às mulheres, mas a Regina Fernandes, a esposa do João Agostinho Fernandes, atuou numa das primeiras peças do Tiatr em concani, Batcará, logo em 1904? Sabia que as caravelas que navegavam de caminho ao Brasil, África e Índia também abrigavam atores e músicos para entreter os tripulantes? Sabia que a peça de teatro de Almeida Garrett, Frei Luis de Sousa, foi traduzida para o concani por Shantaram Anant Hedo (Yatrik) e encenada em Margão em 1977-78? Não foi talvez uma arte muito notável em Goa, mas mesmo que nas margens da sociedade, o teatro, nos seus diversos formatos, produto de várias influências, tem desempenhado o seu papel de entreter, convidar à reflecção, e ensaiar a vida de modos diversos e divertidos, ao longo dos anos.
O conceituado crítico do teatro, Richard Schechner, refere-se ao teatro como um Quarto Mundo, um espaço onde os poderes instituídos ideológicos, políticos, militares e económicos poderão ser interrogados livremente e com autonomia. (Põe-se, obviamente, a questão da censura, mas isso pede já outra discussão.) Este espaço relevante fica frequentemente situado às margens da sociedade, um espaço resiliente e criativo fazendo face a constantes desafios.
Temos no nosso meio várias faces de teatro. É provável que algumas formas que ainda perduram, como o Natak associado aos festivais nos templos, e o Dashavatar, o Zagor, o Khêll, o Sangodd, o Dhalo, o Goff, e outros teatros folclóricos, tenham raízes na antiguidade.
O teatro em marata goza de imensa popularidade, e tem mantido contato com a comunidade de teatro muitíssimo ativa de Maharashtra. A Goa Hindu Association, que se esforçava em Bombaim por atender aos desafios que os goeses encaravam em tempos coloniais, foi tornando-se célebre pelo apoio que oferecia ao teatro. Depois de 1961, o teatro marata em Goa foi ganhando energia e autoconfiança e continua a desfrutar duma audiência muito entusiasta e sofisticada.
A Kala Academy em Pangim Goa, tem contribuído de modo relevante para nutrir uma cultura de teatro em Goa: oferece hoje um curso universitário (BA Theatre Arts) na Goa University. Tem encenado um grande número de peças, geralmente em hindi, marata e concani.
É triste que haja muito poucos elos entre os vários teatros em Goa. Existe teatro profissional vigoroso tanto em marata como em concani, e também o Tiatr, mas as audiências são diversas e não se sobrepõem.
As primeiras peças em português por autores portugueses, apresentadas em Goa foram os ‘autos’ de Gil Vicente, como também histórias da Bíblia e a vida dos santos, como na tradição medieval europeia do teatro de ‘milagre, mistério e moral’. “Consta que o poeta Camões encenou a sua peça Auto de Filodemo na ocasião da investidura do governador Francisco Barreto (1555), com quem ele teria mais tarde uma briga por causa de duas outras peças suas, Sátira do Torneio e Disparates da Índia. Devido a isso, foi deportado às Molucas.” (Carmo Azevedo)
No século dezanove, o teatro em português estabeleceu-se com pé mais firme em Goa. Sabemos que as peças eram representadas em Pangim, a capital, mas também em outros locais, como Margão, Carmoná, Mormugão, Bicholim, Mapusá e Ribandar. Inácio Custódio Coelho, Luís Napoleão de Ataíde, António José dos Mártires e Souza, e Ananta Rau Sar Dessai contam-se entre os dramaturgos cujas peças foram encenadas (Lourdino Rodrigues). É interessante ver que se encontram também mulheres goesas a escrever, como a Fernanda de Castro, autora de Náufragos, Maria Luísa de Sequeira Coutinho e Filomena da Cunha.
Temos conhecimento de dois dramaturgos goeses já no fim do século dezassete: Francisco do Rego, e Mateus Lacerda que escreveu comédias em português, castelhano e concani. É possível que estas peças não tenham sido encenadas.
Talvez o dramaturgo mais conhecido da época tenha sido o Joaquim Filipe Néri Rebelo: Mogarem que é uma peça histórica baseada na história de amor do Vice Rei Dom João de Castro e uma menina Hindu de Bambolim. Também tornou-se clássica a peça em verso, Vatsalá, de Nascimento de Mendonça, que provavelmente nunca foi encenada. Adeodato Barreto escreveu uma linda poesia-teatro Tragédia dos que Partem, mas esta nunca foi apresentada em Goa. Sem Flores Nem Coroas, da autoria de Orlando da Costa, em 1967, focando o dia 19 de Dezembro 1961, foi encenada em Lisboa mas não em Goa.
Ocasionalmente têm-se visto iniciativas para reavivar o teatro português em Goa com participação local. A revista-rádio semanal Renascença, da All India Radio, também se esforçava por isso. The Portuguese Teachers Association promoveu concursos de teatro em português por alguns anos. O Departamento de português da Goa University tem levado os alunos a participar em festivais de teatro. Outras peças foram encenadas em Pangim, como São Sebastião, nas Fontainhas, e Barco Sem Pescador pelo dramaturgo espanhol Alejandro Casona mas estas iniciativas tem sido raras.
O Tiatr, em concani, tem ganho enorme popularidade e autoconfiança através dos 130 anos da sua existência. A história é hoje bem conhecida, do Lucasinho Ribeiro, um goês que trabalhava em Bombaim na manutenção de cenários para um companhia italiana de teatro; viajou com a companhia por algumas cidades da Índia, e ficou encantado com esta forma de teatro no placo proscênio. Homem audaz, o Lucasinho Ribeiro preparou-se para encenar a sua própria peça em concani, adaptando a história e utilizando alguns dos trajes rejeitados. Italian Bhurgo, torna-se assim a primeira peça desta longa e fértil história do Tiatr. Diferente do teatro folclórico anterior como o Zagor e o Khêll, que eram basicamente teatro de rua, temos aqui agora uma peça apresentada numa casa de teatro em Bombaim por um grupo que assume o nome Goa Portuguese Dramatic Company. O Tiatr pôe-se a entreter e instruir o público com comédia robusta, melodrama e sátira social. A música e a canção tornam-se parte integral da apresentação. Hoje o comentário político corre muitas vezes como subtexto de muitas das peças. O Tiatr é recebido calorosamente pela audiência goesa, já que “exprime os seus problemas e atribulações, esperanças e aspirações.” (Pramod Kale).
O teatro em inglês? Ele faz parte, embora de passagem, das escolas e colégios. Grupos de teatro vindos das grandes cidades como Mumbai, Bangaluru e Chennai fazem às vezes peças interessantes quando apresentam as suas adaptações dos musicais de Broadway ou peças por dramaturgos indianos que escrevem em inglês, como Mahesh Dattani, or peças em tradução da autoria de conhecidos dramaturgos como Vijay Tendulkar ou Girish Karnad.
Aqui tenho eu umas linhas a contribuir, já que sou membro dum groupo de teatro amador, The Mustard Seed Art Company. Encenamos peças em inglês arraigadas no solo de Goa. Nos últimos 35 anos temos vindo a contar as nossas histórias locais, para entreter e convidar à reflecção. Os nossos temas estão geralmente enraizados na nossa própria vivência: Few Miles, Many Smiles, comemorando Panjim quando foi da celebração do estabelecimento desta cidade; Who Sits Behind My Eyes, destacando a mulher na comunidade dos pescadores; também memórias, do Dia 19 de Dezembro de 1961 e do Opinion Poll, tem vindo convidar à reflecção; assim como a primeira Partição de Bengala em 1905. Personagens interessantes tem afluído ao nosso palco: Mário Miranda, Rabindranath Tagore, Madame Mao, Wolfgang Amadeus Mozart… e outras. Tem sido para todos os participantes uma viagem fascinante de descobrimento e experimentação.
O teatro é uma arte rica em trabalho colaborativo. O dramaturgo, encenador, os atores, músicos, cantores, pintores e cenógrafos, junto com os técnicos das luzes e do som, todos colaboram para dar vida a uma peça dramática. A audiência, por seu lado, faz também parte intrínseca de algo “escrito no vento” (Peter Brook). Se o teatro ancião teve as raízes no ritual, não será de todo inepto afirmar que mesmo hoje o teatro tem algo de ritual – visto que ele ensaia a mutualidade, a sanidade e a vivência comunitária.

